Fantástico - Vai fazer o quê?

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O salto da loba

Em sentido contrário às comédias batidas de gabinete, com bichinhas, gostosonas, plumas, paetês e flu-flus, o produtor Roberto de Freitas dá sinais, finalmente, de ter encontrado novo rumo para seus trabalhos. Na idade da loba, seu mais recente empreendimento, surpreende quem pensou conhecer o comandante do Teatro da Maçonaria. A trama de sua autoria, ainda que fraca do ponto de vista dramatúrgico – não vai muito além de jogo de sedução –, se faz bom pretexto para Roberto crescer, produzir melhor e dar guinada na carreira. Realizador bastante atuante da cena local, duramente criticado pelo estilo “toque de caixa” – o sujeito é uma máquina de produção –, Roberto reuniu diretor experiente e casal de química e fisic de role para tentar contar bem sua história de amor.

O argumento, simples, bebe da combinação solidão/internet para se fazer roteiro. Mulher madura, sozinha, encontra rapazote bom de papo na grande rede, mantém namoro virtual e, por fim, seduzida pelas boas intenções do moço, acaba marcando encontro em seu próprio apartamento. O conflito vem da diferença de idade e até consegue promover alguns bons diálogos, mas o que se vê a partir daí é o bom trabalho de Diva Carvalhar e Ely Barbonaglia, seguros em suas composições, longe dos estereótipos de caras e bocas já tão conhecidos. Diva, competente, se destaca por sensibilidade e experiência. Ao telefone ou em apuros no sofá, dá graça e emoção ao jogo de cena proposto pela direção.

Fernando Couto é bom contador de histórias. Em Na idade da loba, esperto, consegue ampliar em significados o texto e elaborar limpo e eficiente o desenho da ação. A seleção musical, com hits dos anos 1970, ajuda com as pausas e nas intenções dos intérpretes. A maior surpresa reservada ao público que acompanha Roberto de Freitas é o cenário, caprichado, desenhado por ele: caixa moderna, sustentada por colunas metálicas vazadas, que dão estilo e sugerem conceito de criação ao covil da bela loba.

Na idade da loba
Teatro da Maçonaria (Av. Brasil, 478 – Santa Efigênia – 3213-4959). Domingo, às 19h15. Ingressos: R$ 24 (inteira); R$ 12 (meia-entrada) e R$ 10 (postos do Sinparc). Em fevereiro, às terças-feiras, às 21h.

Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 30/1/11

A bichinha qua-quá

Para a surpresa do povo mais conservador daquela cidadezinha do interior, quando o Roberval Pata de Onça soube que o único filho gostava de homem mandou soltar até foguete: “Mata logo aquele boi gordo que a gente tem muito o que comemorar”, ordenou, felicíssimo, a um dos funcionários do fazendão. A mulher, dona Gertrudes, por mais de dez anos, guardou segredo e fez de tudo para proteger o rebento do que, em princípio, poderia provocar verdadeira fúria no pai. Chegou até a levar o garoto ao médico, dizendo ao marido que ia passear na capital. A conversa com o doutor entendido ela nunca esqueceu:

– Seu filho tem uma saúde de ferro.
– É que... ele tem certas delicadezas...
– Natural.
– Como natural, doutor?
– Ele é gay.

Foi assim, na lata. O especialista conversou muito com dona Gertrudes e ela voltou para a fazenda bastante aliviada. Só não teve coragem de contar para o Roberval. “Isso não. Seja o que Deus quiser”, pensou. Pouco tempo depois, o garoto, homem feito, foi arranjar supletivo na capital para ver se, finalmente, dava conta de concluir o ensino médio, já que era muitíssimo fraco com os estudos. Às escondidas, o que ele melhor fazia era se acabar em indecências com alguns peões, dois padres e um colunista social da redondeza.

Na capital, montou república e até deu conta de entrar para faculdade barata, de processo seletivo diferenciado. Arrumou trabalho e lá deu jeito de ser promovido, grudado no saco de executivo afeminado. Chegado numa festa, enturmou-se rápido entre gente graúda da cidade e acabou ganhando algum destaque por meio de vocação interesseira profissional extraordinária. Severo, lá no interior, o pai Pata de Onça nem desconfiava da vidinha falsa, vazia, de fofocas, mexericos e leva-e-traz que o filhão poc-poc levava.

Dia de festa. Enquanto o boi gordo seguia rumo ao matadouro, Roberval deixou a mulher no comando da cozinha e foi buscar o rapaz no aeroporto do campinho. Lá, de sorriso aberto, recebeu o herdeiro. No abraço arrochado, de macho, o velho Pata de Onça soprou no ouvido da boneca: “Que beleza! Mas se me sair bichinha qua-quá...”

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 31/1/11

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Cada um tem a sogra que merece

Produção da atriz Heloisa Duarte, "Cada um tem a sogra que merece" já ganha espaço entre as melhores comédias da temporada. O texto de Wesley Marchiori, sob a direção de Kalúh Araújo, é diversão garantida para quem reconhece valor no gênero. É melhor correr para conferir o excelente trabalho do trio Ana Gusmão, Diva Carvalhar e Dedé Miwa, porque vai faltar ingresso para o Teatro da Biblioteca. Informações: www.sinparc.com.br

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Bom programa no Barreiro

Quem já viu sabe que "2 de paus" é imperdível. A peça tem direção de Fernando Veríssimo e texto de Arthur Tadeu Curado. O espetáculo, cheio de ritmo, tem tratamento de história de amor como outra qualquer. Na medida, sem sobrar ou faltar, texto, elenco e direção divertem e emocionam com dignidade e bom humor. O casal gay é muito bem interpretado pelos atores Douglas Gonzales e Aloisio Pires. Último fim de semana para conferir o trabalho, em cartaz no Barreiro. Mais informações: www.sinparc.com.br.

Boa química em cena

Em breve, em Vida Bandida, resenha de "Na idade da loba", em cartaz no Teatro da Maçonaria, pela 37ª Campanha de Popularização Teatro & Dança. Diva Carvalhar e Ely Barbonaglia estão mandando muito bem na produção de Roberto de Freitas, dirigida por Fernando Couto.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Deu no Estado de Minas


Último Dia
A lógica do absurdo

Por Marcello Castilho Avellar

O romance Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll (1832-1898), pertence a uma categoria integrada por poucos membros. Mais do que contar uma história ou apresentar personagens e peripécias, propõe ao leitor uma lógica que pertence exclusivamente ao universo da ficção, que não finge ter vínculos objetivos com as lógicas do mundo real, e povoa-a com arquétipos. Talvez por isso sua adaptação para outras linguagens seja tão difícil, como verificamos recentemente no filme homônimo dirigido por Tim Burton. O espetáculo Alice ao avesso, que Jefferson da Fonseca dirigiu para a Querida Companhia, vence exatamente por compreender a singularidade do material em que se inspira.

Alice ao avesso não pretende simplesmente recontar no palco o livro de Lewis Carroll, nem explicá-lo. Na essência, aceita sua lógica absurda, assume seus arquétipos e verifica sua atualidade. Arquétipos, como entes do inconsciente humano, tendem à atemporalidade. Se no século 19 criaturas como Alice ou a Rainha de Copas falavam das contradições da Inglaterra vitoriana, no Brasil do século 21 elas continuam capazes de dizer algo, mesmo que este algo seja diferente do que era há século e meio atrás. Uma festa, música eletrônica, piadas e situações contemporâneas constituem o material colocado sobre a estrutura criada pelo autor. No processo, Alice ao avesso fala ao espectador tanto de seu tempo quanto do que ele divide com milênios de história humana, dos medos contemporâneos ao fascínio pelo desconhecido que parece inerente à humanidade.

É produção que confia mais no elenco que em recursos materiais. E os jovens intérpretes se saem bem, transformam em algo que parece ser deles a história escrita por outro e sonhada por muitos. Se não chega a fazer de sua precariedade material um manifesto estético, Alice ao avesso pelo menos é capaz de incorporá-la a certo clima de teatro underground que combina tanto com o espaço em que se apresenta – o Sesi Holcim é apertado, claustrofóbico – quanto com o clima onírico que propõe. O resultado é algo que consegue produzir desconforto mesmo enquanto diverte.

ALICE AO AVESSO
Hoje, 19h, última apresentação. Teatro Sesi Holcim (Rua Álvares Maciel, 59, Santa Efigênia). Ingressos na bilheteria a R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia). Nos postos da Campanha de Popularização do Teatro e da Dança, R$ 12.

Estado de Minas - Marcello Castilho Avellar - 26/1/11

Foto: Adriana Porto

Sobre amigos reais

Esta semana, é com alegria e satisfação que recebemos Lucinha em nossa casa em Marataízes. A pequena Lúcia é sobrinha da Violeta. Jovem ainda, vinte e poucos anos, estudante de enfermagem em escola bacana de Belo Horizonte. A moça chegou na manhã de sábado para passar uma semana conosco à beira-mar. O namorado, Túlio, bom moço, trabalhador de futuro promissor no ramo da computação, não conseguiu folga no trabalho e acabou tendo que ficar no Vale do Aço.

Lucinha é amiga do tipo quase irmã da Violeta. Acabamos muito amigos também e, vez por outra, os três, colocamos nossas inquietações em dia. É de dar gosto ouvir a menina. Especialmente porque ela é muito boa comunicadora e escreve muitíssimo bem. Tem talendo raro para a comunicação. Violeta vive dizendo que em vez de enfermagem ela devia ser jornalista, professora ou publicitária. Mas ela tem muito amor pela enfermagem e vem sendo muito feliz nos estudos. Contudo, Lucinha chegou um pouco triste em nossa casa.

Estava aborrecida com alguns estudantes conhecidos. Não brigou com ninguém, mas estava que não se aguentava com a postura de determinados colegas. A gota d’água foi papo-furado durante trabalho de fim de semestre no laboratório da universidade. A coisa toda já tinha mais de mês, mas ela, sensível demais, ainda estava chateada. É que Lucinha, boa comunicadora, há mais de três anos, andava super empolgada com blogs, Orkut e Facebook. Assunto que não domino bem e que estou por estudar. O fato é que Lucinha era uma blogueira de mão cheia e participava dessas duas redes sociais virtuais (Orkut e Facebook). Hoje, não quer mais saber dessas paradas.

O desabafo da Lucinha faz todo sentido. Ela percebeu que muita gente anda fazendo o uso indevido dessas ferramentas de comunicação. Tomou as dores de uma amiga que não estava presente no encontro para o trabalho no laboratório. Lucinha ouviu duas outras pessoas do grupo criticando, falando mal à beça, de fotos dessa amiga. Também liam em tom de chacota comentários ou pensamentos da moça. O resultado é que Lucinha deixou o grupo, fez questão que tirassem seu nome do trabalho. Mais que isso, além de deixar as duas redes de contatos, deletou seu blog cheio de bons textos e poesias. Disse que se sentiu ofendida. “Se fazem com ela, fazem comigo e com qualquer um. É muito desrespeito”.

Estou estudando o assunto, que é para mais de metro. Volto ao tema mais para a frente, amigo leitor. Lucinha já está bem. O bom do desabafo é que o aborrecimento diminui. Na segunda-feira, a moça já estava bem melhor e até voltou a escrever. Violeta e eu pedimos para ver e, quem sabe, até publicar um trecho aqui. Mostrar ela mostrou e a poesia é das mais lindas que já lemos. Mas não quis publicar. Por enquanto, Lucinha só quer ser lida pelos amigos reais.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 26/1/11

A vitrine dos Duques

Loucas por... fama é grata surpresa nesta edição da Campanha de Popularização. Melhor começar pelos tropeços, já que acertos não faltam. O mais grave está na dramaturgia e não chega a comprometer, apenas enfraquece o andamento da sequência de boas ideias contidas no roteiro. Como as reticências no título que interrompem a leitura. Trata-se da ruptura imposta pelas entradas do ator-diretor e seu assistente nas desventuras das três amigas que buscam oportunidade no Rio de Janeiro. O metateatro estabelecido com as interrupções da dupla pseudocondutora é inadequado ao argumento, inteiro por si mesmo. A história de Carla Duque seria ainda melhor sem interrupções.

Outro desacerto menor vem justamente de ponto de valor na montagem: tão à vontade em cena, o bom trio masculino, por vezes, deixa escapar personagens por excesso de liberdade. Há também um desvio de qualidade que ocorre na praia, por meio das cenas paralelas mantidas por congelamento. Marcação escolar que não está à altura da boa direção de Dílson Mayron.

De melhor, a começar, fica a produção da família Duque. Mais uma vez bem cuidada, com cenário simples, de desenho eficiente e figurino de muito bom gosto em cores e modelos – Mauro Gelmini é nome que vale ser guardado. A trilha adaptada por Dílson Mayron e Daniel Souza, assim como as coreografias de Michelle Loiola, cumprem bem proposta de respiro e alinhavamento da direção.

Ator de timing e verve cômica indiscutíveis – quem o conhece em cena não esquece sua capacidade de construir graça –, Dílson Mayron soube compartilhar e levantar espetáculo jovem e divertido. Nota-se o deboche do diretor, por exemplo, nos quadros de costura e nos desdobramentos dos atores. Com espaço para todo mundo mostrar serviço, Loucas por... fama reúne elenco que faz por merecer o calor da plateia. Marcelo Duque, Rodrigo Fernandes e Thiago Pimentel, com pouco mais de firmeza e convicção, vão se superar em temporada. Carol Viveiros, belíssima no palco, não sobra no papel de modelo e, com pinta de veterana, manda bem as falas. Letícia Zappulla, mesmo quando carrega a ação em histrionia, dá conta de prender a atenção do público.

Loucas por... fama é vitrine de luxo para Carla Duque. Não bastasse escrever e produzir, é excelente atriz, dona de fôlego, verdade e carisma, o que não se vê comumente. Longe do “mineirês” carregado, tão batido por quem leva o sotaque de Minas para a ficção, sua personagem (ela mesma em outros tempos, imagina-se) exibe naturalidade que arrebata.

Loucas por... fama
Teatro João Ceschiatti, do Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro). De segunda a quarta-feira, às 20h30. Ingressos a R$ 24 (inteira); R$ 12 (meia); R$ 8 (postos do Sinparc). Informações: (31) 3236-7400.

Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 26/1/11

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Os quatro vagabundos da Rua D

Na família do Alceu, vigilante, gente vazia dava que nem praga. Era possível contar no polegar sujeito de sangue que ali prestasse. Com os quatro irmãos, todos crescidos, dependurados na pensão da mãe, viúva, era só aborrecimento e preocupação a vida do Alceu. Um encosto só a malandragem no lote da Rua D. O vigia sofria à beça com tanto abuso por parte dos irmãos. A mãe, dona Neuza, vivia de defender preguiça: “Fica assim não, meu filho. Eles até que procuram, mas trabalho tá difícil demais”. Dona Neuza passava pouco dos 50, que mais pareciam 60, de tanto se acabar no tanque e no fogão. Alceu, dia sim, dia não, transbordava a razão: “Caramba, Neto! Pô, Juão! Que isso, Junim!? Wagner, Wagner… vão pegar numa vassoura, ao menos…”. Nada. Os quatro marmanjos – o caçula já beirava os 18 – esbanjavam incapacidade de iniciativa ou utilidade.

Era mesmo caso de indignação. A patota, à toa, só no computador, não queria saber de estudo nem trabalho. Nem as cuecas os manés-preguiças lavavam. Dona Neuza, coitada, quando não esquentava o umbigo na cozinha, estava a ensopar as ancas na área de serviço. Escrava dos rebentos, na medida do possível, não deixava faltar nada e mantinha tudo limpo e pronto a tempo e hora. Das roupas de camas, sujas pelas indecências dos garotos com as namoradinhas, dona Neuza também cuidava sem reclamar. Limitava-se a pensar alto: “Meninos!” A funcionária pública aposentada, cozinheira de mão cheia, fazia render o dinheirinho e a despensa. Era difícil saber como as contas andavam em dia. Claro, com a ajuda do Alceu, vigia noturno e estudante de Administração. O moço dividia o salário com a mãe: “É pra senhora, hein!? É pro remédio e pra ajudar com o barracão dos fundos”.

Dona Neuza, hipertensa, além do amor sem fim pelos filhos, tinha outra obsessão: sonhava reformar o barracão de fundos para alugar e aumentar a renda. Alceu pedia para assumir a obra, mas Dona Neuza não abria mão de cuidar ela mesma do assunto. “Fui muito feliz com o seu pai lá, meu filho. Deixa que eu vou deixar a casinha bonitinha que nem era quando você nasceu”, disse outro dia, com os olhos marejados. Assim a vida seguia. Neto, João, Junim e Wagner continuavam nem aí para coisa alguma que prestasse. Empurrados pelo tempo, patéticos, eram só superfície. Tragédia. Causa de razões que a própria razão desconhece, Alceu morreu semana passada, enquanto ganhava o pão, baleado por ladrão pé-de-chinelo. Foi o bom patrão, dono da empresa de segurança, quem deu a notícia do seguro: R$ 200 mil deixados para a mãe. Dinheiro para o barraco e para ajudar a dar jeito de gente nos irmãos vagabundos.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 24/1/11

domingo, 23 de janeiro de 2011

Videochat

Na semana passada, tive o privilégio de participar de bate-papo com Wilson Oliveira, Silvia Dalben, Paulo André e Fred Bottrel, promovido pelo em.com.br. Em pauta, com tanta gente boa da arte e comunicação, teatro, é claro!

Bloco 1


Bloco 2



Bloco 3

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O escritório de Deus

Todo ano, em janeiro, a história se repete. Abatido por mundaréu de notícias ruins, fico aqui, olhando o infinito do mar, tentando desvendar mistérios das águas. Especialmente, das chuvas. É cedo. O sol acaba de apontar, longe, enquanto, sentado em pedra grande da Praia da Cruz, em Marataízes, rabisco a folha de papel pautado. Gosto de respirar fundo e escrever de olho no horizonte. Há, caro leitor, uma linha linda no encontro do céu com o Atlântico. Uma beleza! Digo para mim mesmo: "Se Deus tem um escritório para despachar com seus velhos anjos e receber novatos, certamente, é naquelas bandas". Impossível não estar inteiro com a cabeça num lugar assim.

Ontem, antes de dormir, lancei convocação extraordinária: "Reunião urgente! Que todos os meus eus estejam comigo, amanhã, às 6h, na Praia da Cruz". Imaginei o tempo do sono suficiente para o alinhamento da patota (somos muitos). E aqui, imagino, estamos todos. Em pauta, a destruição na Região Serrana do Rio de Janeiro e no Sul de Minas, provocada pelas chuvas (?). A interrogação entre parênteses é porque não dá para tirar a responsabilidade do homem nos desastres dessa natureza.

E o homem tem culpa. Muita culpa, sabemos todos. Fico indignado ao entender que o governo, por exemplo, gasta muito mais com verbas emergenciais, do que com programas de prevenção. Que matemática burra é essa que desconsidera a vida? Como deixar de gastar x para evitar tragédias assim e depois gastar 10x para remediar estragos sem fim? Meu caro professor Fabrício, doutor em cálculos e especialista em obras públicas, pode, por obséquio ou caridade, dizer como resolver a questão? Até quando, sai ano, entra ano, famílias inteiras serão soterradas em barrancos?

Lá no horizonte, agora, certamente, naquele clarão, estão discutindo algumas respostas. Toda vez que desastres dessa grandeza ocorrem, o céu ganha um monte de anjo. No entanto, a tristeza é de quem fica. Não é fácil recomeçar. Li e ouvi depoimentos e mais depoimentos de gente que perdeu pais, filhos, irmãos, tudo. Nesses casos, difícil manter a fé. O velho Botelho e eu, ontem, conversamos sobre isso. O pai, bastante abalado, diz não ter respostas. Diz ter pistas, apenas. Não se apega ao porquê de quem parte, e, sim, ao milagre de quem fica. "Devemos pensar e repensar a vida, Josiel. A morte, deixemos que O Criador justifique do lado de lá. Afinal, é Ele quem traz, é Ele quem leva".

Tocado pela luz do horizonte, decidi reforçar meu exército e arregaçar as mangas. Multirão de nós para lidar com o imponderável. Força e solidariedade por meio de atitude e fé. Os companheiros de Belo Horizonte e Região Metropolitana estão fazendo bonito e lotaram a Cruz Vermelha de doações. Tanto que, soube pelo Adelson, um novo endereço foi divulgado para o recebimento de produtos de higiene pessoal e de limpeza, alimentos não perecíveis, água mineral, cobertores e roupas de cama. Tome nota, amigo leitor: BR-356, número 7.515, ao lado da loja Leroy Merlin, próximo ao BH Shopping. No escritório de Deus, centenas de recém-chegados agradecem.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 19/1/11

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O partidão de Aquário

De mudança, Luciana deixou Belo Horizonte bem cedo rumo a Confins. De táxi, chegou cinco horas antes de seu voo para Lisboa. Tinha pressa de futuro. Na madrugada vazia, meia dúzia de gatos pingados, espalhados pelo salão a dedilhar tecnologia. Abatida, pediu um café e catou o último cigarro. “Não ponho mais isso na boca”, disse baixinho, para si mesma. Ali, na banqueta cromada, pela longa espera, fez voltar o tempo.

Repassou os dois últimos anos como quem se despede das coisas. Reviu noivado e casamento em decepção profunda de amor. Luciana conheceu Paulo em festa de fim de ano. Bem vestido, risonho e divertido, o partidão do signo de Aquário desfilava gentileza. Os dois foram apresentados pelo Miguel, colega de repartição da bancária: “Amiga, este é o Paulo, que eu te falo tanto. Médico. Também tá que nem você, a perigo, subindo pelas paredes. Pepê, esta é a Lu, a racha que eu te disse, que tá precisada de um namorado. Pronto. Já apresentei. Agora, o resto é com vocês. Deixa eu ver se arranjo um bofe, porque a noite é uma criança e eu sou o Michael Jackson”. Era assim, sem noção, o Miguel.

Paulo e Luciana já saíram de lá, namorados. Não demorou para que noivassem e, em menos de ano, casório em igreja fina da Zona Sul. Na ocasião, foi o Miguel a pegar o buquê. “Danada!”, disse a mulherada em coro. Até que foram mais ou menos felizes os dois pombinhos. Viajaram e se curtiram com promessas de fazer crescer família e envelhecerem juntos. Vez por outra, jantarzinhos entre amigos – com o Miguel sempre por perto a repetir: “Desde que bati o olho no Pepê, sabia que ele tinha que ser seu, Lu. Bicha quando vê não erra, encerra. É da Lu e ponto final”. Divertidíssima o Miguel com seu bigode Freddie Mercury, costeletas e cabelinho batidinho na nuca.

Entre o casal tudo ia bem até o Paulo vacilar com o iPhone, enquanto tomava chuveirada. O aviso sonoro do aparelho chamou a atenção da Luciana para mensagem reluzente: “Diz que tá de plantão e dorme comigo! Diz... diz... diz!!!!” Paulo foi para o tal plantão. Em frangalhos, Luciana decidiu não ir atrás. Preferiu ficar e fazer varredura no e-mail do marido. Não foi difícil combinar a senha e entrar na caixa-postal do doutor. Decepção de doer e fazer querer mudar de vida, de país: mensagens e mais mensagens de indecência e amor, trocadas entre Paulo e Miguel. Os dois mantinham caso antigo, desde antes da festa de confraternização – encontro armado para Luciana conhecer o marido.

Em Confins, café gelado na xícara e cigarro apagado entre os dedos. A moça do auto-falante anuncia o portão aberto para a bancária reconstruir a vida.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 17/1/11

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A vida a três

Texto e elenco fazem de Marido, matriz e filial peça que vale audiência pela Campanha de Popularização, em cartaz de segunda a quinta-feira, às 20h, na Sala Juvenal Dias, no Palácio das Artes. A comédia escrita pelo dramaturgo e poeta gaúcho Sérgio Jockymann, amarrada por roteiro inteligente e recheada de piadinhas originais que envolvem a vida a três, já é velha conhecida de quem acompanha o gênero no Brasil. Em Belo Horizonte, nos anos 1990, Pedro Paulo Cava reuniu Larissa Grau, Cláudia Assunção e Paulo Resende (impagáveis) numa adaptação marcante.

Na montagem atual, dirigida e produzida por Márcio Machado, nem a simplicidade dos sete pequenos cubos cenográficos, que desdobram marcações pouco criativas e enfraquecem a movimentação dos atores, dá conta de diminuir os acertos da obra de Jockymann. O texto sobrevive também a alguns excessos do figurino, por vezes, carregado para forçar a graça. Salva-se quando em vermelho, preto e branco. Já a trilha adaptada pelo próprio diretor, de bom gosto, enriquece a fé e a atmosfera do bafão. Caminhemos, de Herivelton Martins, é clímax no espetáculo.

Viviane Reis, Karine Terrinha, Ângela Lacerda e Sidney Scherman, à vontade, ajudam a plateia a desconsiderar os pecados da produção. Lander Braga, o marido infiel, tem naturalidade e carisma que o destacam. O ator trata sua personagem-eixo com comicidade espontânea e demonstra ter conhecimento do jogo esperto de interpretação proposto pela narrativa e respeitado pela direção. Três pontos de vista alinhavam a boa dramaturgia de Jockymann. Trupe e carpintaria de escrita são o que sustenta esse Marido, matriz e filial.

Marido, matriz e filial
Sala Juvenal Dias, Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400. De segunda a quinta-feira, às 20h. Ingressos: R$ 30 (inteira); R$ 15 (meia); R$ 10 (postos do Sinparc).

Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 13/1/11

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

É melhor viver antes de estar morto

Sou apaixonado por cinema desde os tempos de moleque, quando esperava para ver os lançamentos de férias de “Os trapalhões”, no Cine Brasil. Certamente, já contei isso aqui, em nossa Bandeira dois. Nos anos 1970 e 1980, o velho Botelho não deixou que eu perdesse uma só aventura de Dedé, Didi, Mussum e Zacarias. Era sempre uma farra. O quarteto alegre se foi, mas, de lá para cá, no cinema ou na TV, não passo semana sem ver ao menos um filme. Sorte minha a Violeta também gostar do programa. Caso contrário, ela sabe bem, seria um problemão.

Esta semana, de pernas para o mar, em Marataízes, aluguei o lançamento “Além da vida”, em DVD. Uma trama que tinha tudo para ser excelente. A começar pelo elenco: Liam Neeson (A lista de Schindler), Christina Ricci (A família Addams) e Justin Long (Amor à distância). Gênero também: drama, mistério e suspense. Meus prediletos. Coloquei a fita pra rolar na maior empolgação. Pipoca, suco de caju, boa companhia, tudo preparado pra fim de noite inesquecível. Só que, amigo leitor, o filme é um horror. É ruim que só a gota. Violeta caiu no sono logo. E eu ali, grudado na tela plana. Minuto a minuto. Pensava: “Agora vai melhorar…” E nada. Ficava cada vez pior. Foi de lascar. A culpa nem é da direção. O roteiro, a história, é que é de doer.

Esse Além da vida é, sem dúvida, o segundo pior filme que vi na vida. O campeão disparado é Sou feia mas tô na moda (2005), da brasileira Denise Garcia. Esse é imbatível. Contudo, aprendo muito com os filmes. Além da vida, sinceramente, me roubou a madrugada. Passei boas horas, sem sono, a pensar e repensar a trama da estreante Agnieszka Wojtowicz-Vosloo (difícil o nome da diretora polaca, né!? Pois é). Fiquei cá, com os meus botões a tentar entender o que a cineasta quis dizer com aquela história tão ruim, acolhida por produção tão caprichada. Aí, mandei ver a caneta na folha de papel pautado.

Dá pano para manga o argumento da morte. O filme de Agnieszka deixa um recado: “A morte existe para que a vida tenha valor”. Ainda outro, dito pelo protagonista, que está a me ferver as ideias: há mais gente com medo da vida do que da morte. Trocando em miúdos, aqui, com o meu português amador: o filme é um pontapé naqueles que vivem como se estivessem mortos (e são muitos, sabemos). Faz dura crítica a postura medíocre de quem não sabe valorizar o bem maior de quem vive. Provoca a reflexão de que há muita gente que vive por viver, sem causa ou objetivo. Afinal, fica a pergunta: o que, realmente, estamos fazendo com o privilégio de estar vivo?

Os primeiros raios do sol já entravam pelo basculante e as ondas do Atlântico cantarolavam baixinho, quando Violeta acordou e quis saber sobre o filme. Evitei comentar e pedi que ela assistisse pra gente comentar depois. Hora e meia mais tarde, ela espinafrou: “Eita filminho sem-vergonha”. Tomamos um belo café da manhã e fomos viver a vida lá fora, sob o sol, diante do mar e com a graça de Deus.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 12/1/11

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Hoje tem Alice no Sesi Holcim

Primeiro espetáculo do agrupamento da Querida Companhia de Arte, "Alice ao avesso" estreia hoje na 37 ª Campanha de Popularização Teatro & Dança. A peça é livremente inspirada na obra de Lewis Carroll – "Alice através do espelho" e "Alice no país das maravilhas" – e dá sequência ao trabalho de pesquisa iniciado pela produção em "Chovia, mas os ladrões não usavam guarda-chuvas" (2005-2006). No elenco, Ana Cândida Cardoso, Emílio Zanotelli, João Porto, Lílian Campomizzi, Paula Sá e Wallison Reis.

Alice ao avesso
Da obra de Lewis Carroll

Produção: Querida Companhia de Arte
Adaptação e direção: Jefferson da Fonseca Coutinho
Cenário e projeto de luz: Criação coletiva
Figurino: Ana Cândida Cardoso
Maquiagem e objetos de cena: Mauro Gelmini
Trilha sonora: Wallison Reis
Fotografia: Adriana Porto
Vídeo: Antônio Mourão

Teatro Sesi Holcim
Rua Padre Marinho, 60 – Santa Efigênia
Temporada: De 11 a 26 de janeiro; terças e quartas, às 19h
Ingressos: R$ 30 (inteira), R$ 15 (meia-entrada).
Censura: 14 anos

Preço único nos postos do Sinparc: R$ 12.

Contatos:
Ana Cândida – 3261-5605/8869-2808
Paula Sá – 9637-1416

Mais informações:
http://www.otempo.com.br/otempo/noticias/?IdNoticia=160394,OTE&IdCanal=4
http://jeffersondafonseca.blogspot.com/2010/10/alice-ao-avesso-estreia-amanha.html

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Os filhos de Francisco

O passado estava por destroçar Francisco. No peito, a pancada veio meio infarto, fulminante: bilhete curto, pregado com Band-Aid, na porta do microondas. Pela mão da mulher, a surra: “Chico, o que é meu mando buscar depois. Seja feliz. Glória”. E tome dor: “Por que???”. Não era assim tão difícil entender a decisão da patroa. Francisco era um fiasco. Quatro casamentos afundados, com um filho cada, não foram suficientes para que o cinquentão, empresário do ramo da construção, tomasse jeito de gente grande. Nada a ver com mulherada, farra ou bebedeira. Francisco só não entendia nada sobre causa e efeito. De costas para o que tem valor, vivia de repetir enganos.

Contudo, fingia ser feliz. As outras donas até pensou ter amado, mas a Glória, Francisco tinha certeza: “É a mulher da minha vida”. Tolo demais. Tanto que, dobrado de paixão, deixou de lado os quatro filhos. Tudo, claro, para agradar a jovem mulher, que não gostava de criança. Glória não queria ser mãe. “Filho é só amolação e dor de cabeça”, dizia, curta e grossa, para quem quisesse ouvir. Logo quando foram morar juntos, depois de transa apimentada, gostosa, descabelada de cansaço, Glorinha reforçou o recado: “Quando for trazer seus filhos, me avisa que é pra eu sair de casa”. E tome quadril.

No início, longe da mulher amada, o Francisco até tentou passar alguns domingos com os filhotes. Pouco a pouco o que era raro acabou-se. No galope do tempo – ainda mais cruel com pais e filhos largados –, lá se foram sete anos. Vez por outra, os dois rapazes mais velhos até ligavam. Para pedir dinheiro, sempre: “Põe na conta”. Encontrar para quê? Bastava a transferência bancária. Com as pensões, Francisco também não vacilava. Desde o dia em que a primeira mulher o fez passar uma noite no xilindró, depositava religiosamente em dia cada um dos quatro compromissos. E dinheiro não faltava, já que os negócios não iam mal. Diferentemente dos meninos, filhos da Naná e da Laura, as duas meninas, rebentos da Lucinha e da Janete, não queriam ver Francisco nem para agradar Jesus.

A indiferença das meninas até que sufocava o comerciante, mas ele mentia bem ser forte e, para ser feliz ao lado da Glória, dava conta de suportar o fardo do descaso. Agora, noitinha, depois do bilhete no microondas, a casa caiu. Francisco perdeu o rumo. Nem esquentou a janta. Largou o prato frio e ligou desesperado para a mulher. Pelo telefone, uníssono não. “Acabou. É isso, Francisco! Tenho outro. Outro!” Sincera a Glória. A dor veio dura, retroativa. Foi impossível não pensar no passado. O casão, cheio de quartos de hóspedes, piscina e tudo – jamais visitado pelos filhos –, ficou ainda maior. Francisco, então, começou a perceber que a dor no peito, fulminante, é o peso da culpa.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 10/1/11

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Fé e força para 2011





Ano passado de muito trabalho e satisfação na Escola de Teatro Puc Minas. Com todos os problemas e dificuldades inerentes ao agrupamento de atores-alunos numa escola livre, foi grande privilégio levar adiante duas propostas absurdas tão atrevidas: "A visita da velha senhora" (fotos acima), de Dürrenmatt, e "O rinoceronte" (fotos abaixo), de Ionesco, são prova material de que há um sopro de sorte que vem do Olimpo. Já debruçado sobre calhamaço clássico, mantenho fé e força para 2011. Evoé!




quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

De volta ao batente

Depois de temporada de aventura nos EUA, terra de luzes e nevascas, é tempo de matar a saudade de Belo Horizonte. Tô na Campanha, tô no batente: "Alice ao avesso", "Vila dos mortos", "Vincent e o Comedor de batatas". Vá ao teatro!




A tia vampira da Neidinha

À beira-mar, assim: um rei de chinelas. Eita que 2011 promete! Nada a reclamar, tudo a agradecer. E, atendendo a pedidos, para espantar olho-gordo, mau-olhado e praga de gente miúda, trecho de oração de São Jorge:

"Eu andarei vestido e armado, com as armas de São Jorge. Para que meus inimigos tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me enxerguem, nem pensamentos eles possam ter para me fazerem mal. armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem ao meu corpo chegar, cordas e correntes se quebrem sem ao meu corpo, amarrar".

Sob o manto de nosso Santo guerreiro, fiel aliado do Deus que há em nós, estamos prontos para 2011, amigo leitor. O céu é o limite. Há muito a ser feito, a ser vivido. Com saúde, o resto tiramos de letra. Daqui, da varandinha que dá para o Atlântico, posso ver os filhos brincando na areia. Alegria maior não há. Quem é pai sabe bem da grandeza que é poder tirar um tempinho para os filhotes. Ainda mais em tempos difíceis, de muito estudo e trabalho.

Estou aqui, a rabiscar a caderneta de papel pautado, juntando as ideias para a nossa Bandeira Dois desta semana. Sábado, recebi telefonema da Neidinha – aquela amiga que vive a repetir a frase do Jabor: "A vida gosta de quem gosta da vida". Ligou para desejar feliz 2011 e dizer que ficou muito feliz com a citação no texto da última coluna. Pediu também para que eu tomasse nota de um pensamento e publicasse:

"Anote aí, Josiel: quando você disse, na coluna passada, que vampiro de energia é ‘assunto para mais de metro’, fiquei pensando que é assunto pra mais de quilômetro. Conheço muita gente que tem uma capacidade enorme de jogar a gente pra baixo. Na minha família mesmo tem casos e mais casos. Tenho uma tia que é pura tragédia e desespero. Já reparou como para algumas pessoas qualquer bobagem é motivo de desânimo e falta de ação? Essa minha tia é a pessoa mais pessimista que deve existir na face da terra. E ela quer porque quer contagiar todo mundo que tá perto dela. O pior é que a danada consegue. Uma vez, há mais de 10 anos, ela passou uns dias lá em casa para fazer uns exames. Ela tinha certeza que estava para morrer, mesmo os médicos dizendo que ela estava com uma saúde de ferro. Aí, quando ela foi embora, todo mundo tava falando que eu tava mudada, estranha. Só depois é que fui perceber que eu tava até seca de tanto pessimismo e preguiça. Vê se pode? Tomei um banho de sal grosso e firmei com São Jorge. Só assim recuperei a força. Por que você não publica um trecho daquela oração de São Jorge em Bandeira Dois? E pode dizer sem dó que a minha tia é vampira. Porque até ela, rabuja, faz graça com isso"

Olha lá, Neidinha… Não quero ficar mal com a sua tia, hein!? Obrigado pelo telefonema, viu!? Quando voltar das férias, lá pelo fim do mês, levo sua encomenda. Gabriel, Tiago e Violeta mandam beijos e abraços.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 5/1/11

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Obrigado, Lucinda!

"Há males quem vem para bem" retumbava na cabeça de Eustáquio. Na virada do ano, às margens da Lagoa da Pampulha, abatido por fora descomunal, o vendedor de automóveis não pensava outra coisa. Júlio, Alberto e Henrique, divorciados, tentavam animar o amigo:

– Melhor assim que continuar comendo capim!
– Vai-se a sujeita pra dar lugar a moça direita, mané!
– Deus escreve certo por linhas tortas, Taquim!

Em outra parte da cidade, na Praça da Estação, a ex-mulher, Lucinda, rebolava no colo de outros: "Vem com tudo, 2011! Três, dois, um... Uhuuuuuuuu!!!" E tome fogo e barulho!

Na Pampulha, Eustáquio não conseguiu fazer sorriso nem com a explosão de cores a iluminar a multidão. Os amigos estouraram champanhes e banharam-se em festa. Entre os desejos de boa sorte, o quarentão deu perdido no grupo e decidiu caminhar pela orla. "Há males que vem para bem. É isso".

Deu a volta na Lagoa em três horas de caminhada. Tempo para pensar na vida e desintegrar Lucinda. Na porta do Iate Clube, vestida de branco, sentadinha num canto, com um cigarro apagado entre os dedos, Maria, namorada de tempos felizes:

– Taquinho!?
– Maria!?

No silêncio dos descasados, abraço longo, sincero. Ficaram ali, em aconchego estranho, por mais de minuto. Até águas rolaram. Suspiraram um só respiro e desculparam-se. "Por que?", ela quis saber. "Pelo abraço", ele respondeu pelos dois. "Acho que não se deve pedir desculpas por uma coisa dessas", ela sorriu.

Taquinho e Maria relembraram os quatro anos de relacionamento, 14 anos corridos. Sentiram-se muito bem ao reviver história de amor e graça. Já era dia quando decidiram dormir embolados em suíte de motel requintado. Dos casamentos encerrados, sem filhos, cinzas. Já o namoro, interrompido por motivo besta, reataram ali, sem perceber.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 3/1/11