
Contudo, fingia ser feliz. As outras donas até pensou ter amado, mas a Glória, Francisco tinha certeza: “É a mulher da minha vida”. Tolo demais. Tanto que, dobrado de paixão, deixou de lado os quatro filhos. Tudo, claro, para agradar a jovem mulher, que não gostava de criança. Glória não queria ser mãe. “Filho é só amolação e dor de cabeça”, dizia, curta e grossa, para quem quisesse ouvir. Logo quando foram morar juntos, depois de transa apimentada, gostosa, descabelada de cansaço, Glorinha reforçou o recado: “Quando for trazer seus filhos, me avisa que é pra eu sair de casa”. E tome quadril.
No início, longe da mulher amada, o Francisco até tentou passar alguns domingos com os filhotes. Pouco a pouco o que era raro acabou-se. No galope do tempo – ainda mais cruel com pais e filhos largados –, lá se foram sete anos. Vez por outra, os dois rapazes mais velhos até ligavam. Para pedir dinheiro, sempre: “Põe na conta”. Encontrar para quê? Bastava a transferência bancária. Com as pensões, Francisco também não vacilava. Desde o dia em que a primeira mulher o fez passar uma noite no xilindró, depositava religiosamente em dia cada um dos quatro compromissos. E dinheiro não faltava, já que os negócios não iam mal. Diferentemente dos meninos, filhos da Naná e da Laura, as duas meninas, rebentos da Lucinha e da Janete, não queriam ver Francisco nem para agradar Jesus.
A indiferença das meninas até que sufocava o comerciante, mas ele mentia bem ser forte e, para ser feliz ao lado da Glória, dava conta de suportar o fardo do descaso. Agora, noitinha, depois do bilhete no microondas, a casa caiu. Francisco perdeu o rumo. Nem esquentou a janta. Largou o prato frio e ligou desesperado para a mulher. Pelo telefone, uníssono não. “Acabou. É isso, Francisco! Tenho outro. Outro!” Sincera a Glória. A dor veio dura, retroativa. Foi impossível não pensar no passado. O casão, cheio de quartos de hóspedes, piscina e tudo – jamais visitado pelos filhos –, ficou ainda maior. Francisco, então, começou a perceber que a dor no peito, fulminante, é o peso da culpa.
Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 10/1/11
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