Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O partidão de Aquário

De mudança, Luciana deixou Belo Horizonte bem cedo rumo a Confins. De táxi, chegou cinco horas antes de seu voo para Lisboa. Tinha pressa de futuro. Na madrugada vazia, meia dúzia de gatos pingados, espalhados pelo salão a dedilhar tecnologia. Abatida, pediu um café e catou o último cigarro. “Não ponho mais isso na boca”, disse baixinho, para si mesma. Ali, na banqueta cromada, pela longa espera, fez voltar o tempo.

Repassou os dois últimos anos como quem se despede das coisas. Reviu noivado e casamento em decepção profunda de amor. Luciana conheceu Paulo em festa de fim de ano. Bem vestido, risonho e divertido, o partidão do signo de Aquário desfilava gentileza. Os dois foram apresentados pelo Miguel, colega de repartição da bancária: “Amiga, este é o Paulo, que eu te falo tanto. Médico. Também tá que nem você, a perigo, subindo pelas paredes. Pepê, esta é a Lu, a racha que eu te disse, que tá precisada de um namorado. Pronto. Já apresentei. Agora, o resto é com vocês. Deixa eu ver se arranjo um bofe, porque a noite é uma criança e eu sou o Michael Jackson”. Era assim, sem noção, o Miguel.

Paulo e Luciana já saíram de lá, namorados. Não demorou para que noivassem e, em menos de ano, casório em igreja fina da Zona Sul. Na ocasião, foi o Miguel a pegar o buquê. “Danada!”, disse a mulherada em coro. Até que foram mais ou menos felizes os dois pombinhos. Viajaram e se curtiram com promessas de fazer crescer família e envelhecerem juntos. Vez por outra, jantarzinhos entre amigos – com o Miguel sempre por perto a repetir: “Desde que bati o olho no Pepê, sabia que ele tinha que ser seu, Lu. Bicha quando vê não erra, encerra. É da Lu e ponto final”. Divertidíssima o Miguel com seu bigode Freddie Mercury, costeletas e cabelinho batidinho na nuca.

Entre o casal tudo ia bem até o Paulo vacilar com o iPhone, enquanto tomava chuveirada. O aviso sonoro do aparelho chamou a atenção da Luciana para mensagem reluzente: “Diz que tá de plantão e dorme comigo! Diz... diz... diz!!!!” Paulo foi para o tal plantão. Em frangalhos, Luciana decidiu não ir atrás. Preferiu ficar e fazer varredura no e-mail do marido. Não foi difícil combinar a senha e entrar na caixa-postal do doutor. Decepção de doer e fazer querer mudar de vida, de país: mensagens e mais mensagens de indecência e amor, trocadas entre Paulo e Miguel. Os dois mantinham caso antigo, desde antes da festa de confraternização – encontro armado para Luciana conhecer o marido.

Em Confins, café gelado na xícara e cigarro apagado entre os dedos. A moça do auto-falante anuncia o portão aberto para a bancária reconstruir a vida.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 17/1/11

Um comentário:

Cacá - José Cláudio disse...

A traição, não importa em que circunstância, desestabiliza qualquer ser. Belo conto, Jefferson! Abração. paz e bem.