Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Barraco no cartório


Leonor conseguiu o revólver 32 da mão do flanela de ocasião, flor que não se cheira, nas proximidades do Grande Teatro Minascentro, na Região Central de Belo Horizonte. Estava para ver espetáculo de sucesso na Campanha de Popularização e buscava vaga para seu fuscão laranja, ano 1974. O pilantra sanguinolento, abusado, saltou na frente da janela e mandou papo na lata, aproveitando-se da solidão da mulher:

– É nóis! Hoje é 10 real, adiantado, mas pra tia... é R$ 5.
– Quero um 32.
– Como?
– Um 32. O revólver, moço... você tem?
– A tia tá de cao pra cima de mim...
– Tem ou não tem? Você é do tipo que tem.
– Tenho... mas é pro meu uso.
– Quanto?
– 200 real.
– Deixa eu ver...

O sujeito de pouco mais de 20 anos, barba rala, olhos negros e sem dois dentes na frente, olhou para os lados na esquina vazia, tirou o revólver escondido na cintura e entregou para Leonor. Cúmplice, o bandido sorriu:

– Num masca nem nada. Fino. Fala que comprou lá na Praça Sete, tá!? Cuidado com isso que tá carregado, hein!? Que isso, tia? Vira essa p... pra lá! Ce tá doida...???

– Tô doida sim! Tô doidinha! Agora, racha fora! Some! Senão, queimo seu saco!
Assustadíssimo com a reação da bela mulher, o flanela cortou a Rua São Paulo sem olhar para trás. Leonor não soube explicar de onde veio tamanha coragem, mas, desde a manhã daquele dia, ao saber que o ex-noivo, o Julião, estava de casamento civil marcado no cartório de Nova Lima, algo muito forte invadiu suas entranhas. Ela desistiu de ir ao teatro. Com o revólver 32 no colo, na saia justa, rodou cidade e foi para casa, em frangalhos, passar a noite em claro e amanhecer cheia de intenção.

Foi a primeira a chegar no cartório e esperar pelos noivos para o casamento das 10h. Aguardou por mais de hora. Quando Julião chegou, abatido, ao lado da nova companheira, padrinhos e testemunhas, foi um escarcéu de novela. Leonor sacou o 32 da bolsa e colocou todo mundo deitado no chão. De pé, apenas ela e o ex. Os dois se olharam profundamente como quem pede desculpas. De lá, apaixonados, Leonor e Julião saíram abraçados para tentar a vida a dois novamente. Até amor no fusca fizeram, numa quebrada da MG-30.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 13/2/12

Um comentário:

A VIDA É UM ETERNO APRENDIZADO disse...

Olá!
É um grande prazer conhecer seu blog e poder ler o que escreves.
Acredito que quando escrevemos com prazer conquistamos amigos e fiéis amantes das palavras. Sabemos o quanto é difícil levar a nossa voz, as nossas angustias os nossos sonhos às pessoas. Mas o mais importante é saber que você e eu gostamos daquilo que fazemos.E acreditamos que o mundo pode se tornar bem melhor através de nossos escritos.
Grande abraço
Se cuida