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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A casa da melhor idade

Há muito queria conhecer o trabalho realizado pela Sociedade São Vicente de Paulo na Casa do Ancião Francisco Azevedo, no Bairro Ipiranga, Região Nordeste de Belo Horizonte. Adelson, Osmar e Sueli já foram tocados profundamente pelas histórias dos 93 idosos que vivem no lugar. Estive lá. Mesmo no corredor limpo, o cheiro ao longo de quase 100 metros adentro, é marcante. “É que a urina de quem tem diabetes tem o cheiro mais forte”, explica Doralice de Almeida Araújo, a Dorinha, de 64, responsável pela casa. Estive em quartos, enfermarias, cozinha, copa, lavanderia, capela e área de lazer do asilo, fundado em 1959, na Rua Dom Barreto, na Cidade Ozanam. Destaca-se o carinho de Dorinha e da psicóloga Patrícia Ribeiro, de 33, com os internos da casa. As duas falam com gosto pela turma – que tem entre 59 e 105 anos. “Para entrar num trabalho desse, tem que ser pelo coração”, diz a coordenadora, nascida em Pará de Minas, desde os 17 anos em BH.

Diariamente, ao meio-dia, Dorinha, congregada Mariana do Santuário Nossa Senhora Aparecida, reza com alguns dos internos na Capela São Vicente de Paulo. Não falta fé na Casa do Ancião. Em muitos quartos e nas roupas dos idosos, podem ser percebidas imagens santas. Ondina Santana, de 85, solteira, está há sete anos no abrigo. Elegante, de sandalinha cor-de-rosa, saia xadrez e camisa azul floral, tem no peito medalha de Nossa Senhora das Graças. Sozinha, Ondina morava num barracão de fundos no Bairro Vista Alegre. “A dona da casa era muito minha amiga e todos lá me tratavam como se fosse da família. Aí, tive um problema na coluna e não quis dar trabalho. Então, vim pra cá”. No quarto de Ondina, a companheira Isaura Leal, de 81, há cinco anos no asilo. No armário de canto, três flores de papel dão cor ao cômodo arrumado.

Em outro quarto, enfeitado por 20 bonecas coloridas de plástico e pano, duas Marias: Simone e Guilhermina. Maria Simone exibe talento de artista e, afinadíssima, canta música sacra. Também é bordadeira e faz tapetes. “Não gosto de ficar à toa e fico bordando”. Dorinha conta que tem em casa uma obra de Simone. Chega a hora de visita – 14h. Mais adiante, nas enfermarias 3 e 4, Nilda Natalícia Alves, de 34, veio ver Maria Helena Silva, de 74. Ao menos uma vez por semana, a cabeleireira sai de Vespasiano, na Região Metropolitana para levar um pouco de alegria a ex-cliente de salão e não deixar morrer os 14 anos de amizade. Dia feliz. É hora do café. Nos muitos rostos desenhados pelo tempo, silenciosos e simpáticos, sorrisos tristes embargam a garganta de quem está ali de passagem. Impossível manter-se do mesmo tamanho depois de conhecer de perto tanta gente do bem.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 16/2/12

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