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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A atitude que desfaz o paraíso


O empresário de sucesso não pregou o olho naquela noite de plantão da mulher. Por horas, Vacisley andou de um lado para o outro da casa amarela, de mangueira frondosa no quintal, no Bairro Castelo. O relógio vermelho, de parede, indicava 4h35 de domingo. Abriu a janela da sala de dois ambientes, suspirou fundo e ficou a observar o verde vivo em som e movimento com o sopro tímido do verão. Na rua, motocicleta de pneus largos, com casal, vence o quarteirão íngreme. Vacisley viu quando o bigodudo tirou o capacete para beijar a moça em frente ao portão. O carinho entre os dois, enamorados, com mãos suaves pelos cabelos e abraços apertados, foi de dar gosto. O motociclista esperou a garota entrar no casarão, segura, para tocar a máquina e sumir no asfalto. Vacisley respirou e pensou na companheira, profissional do Samu, salva-vidas por vocação. Foi até o quarto cor-de-rosa para conferir o sono das pequenas Marias: Alice e Inês. Gêmeas, de 6 anos.

Sorriu verdade ao ver as meninas, lado a lado, nas caminhas perfumadas, tão bem arrumadas por Maria da Cruz antes de descer para o trabalho. Pela primeira vez, o homem de meia idade observou a delicadeza do cômodo, em pátina, com estrelinhas no teto azul rebaixado, e das prateleiras, enfeitadas por objetos felizes. Envergonhou-se ao descobrir atrás da porta, mural com duas dúzias de cenas lindas da família. Fotografias foscas, grudadas por imãs sorridentes. Suas três Marias em situações de afeto: o mar das últimas férias, seis aniversários, abraços, apresentações de fim de ano do teatro, da dança e a entrega de medalhas da escolinha de natação. Esmoreceu-se ao não se ver em nenhuma das 24 fotos do mural. Presente estava em apenas uma: a tirada por ele em Cabo Frio, no Rio de Janeiro. Das outras 23 ele não participou. Estava, como sempre, ocupado demais.

O painel foi a gota d’água para que o sujeito perdesse o chão. O marmanjo, pai de família e bom negociante, beijou as filhas e voltou para a suíte de casal. Sentou-se na cama king, branca paraíso, em nuvens, e, com a cabeça afundada entre as mãos, chorou como nunca em quase 40 anos de vida. Vindo de sábado tenso, sentiu o peso da noite em madrugada a esmagar-lhe o coração. O silêncio ali, amargura da alma, veio sombra na manhã do dia anterior: “O Zé, estéril, Vacisley, estéril, todo mundo sabia... ele matou a mulher, a Ariadne, grávida, grávida! Está me ouvindo? E se matou depois!”, contou, em pânico, o Fabinho. De Zé e Ariadne, casados, Fabinho e Vacisley foram os mais próximos da faculdade. A amizade ficou e, vez por outra, estavam reunidos, nas férias de janeiro, em Cabo Frio. As 7h37, quando Maria da Cruz chegou do plantão, encontrou Vacisley enforcado sob a mangueira. As meninas ainda dormiam. No bolso do pijama suspenso, bilhete com pedido de perdão. Era ele, há anos, o amante da grávida morta.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 6/2/12

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