Vincent - Um solo de amor

sábado, 5 de junho de 2010

A casa da mãe morta (6)

Presente no pescoço, Larissa, aos 18 anos, não gostou do que viu no espelho e decidiu dizer à mãe biológica tudo o que lhe assombrava. Beatriz ainda era só elogio:

– Ficou linda...

– Tira.

– Como?

– Tira... porque tenho alergia. É claro que você não sabe que eu tenho alergia.

– Sinto muito.

– É melhor a gente parar com esse teatro todo... senão isso pode piorar as coisas.

– Não compreendo.

– Também não entendo bem. O que sei é que precisei de muita coragem pra vir até aqui. Lá fora, fiquei dando voltas no quarteirão, dizendo pra mim mesma que o melhor a fazer seria voltar pra Divinópolis e deixar tudo como estava. Só que a vida lá não é a mesma desde que vovó morreu. Foi como se eu perdesse a mãe duas vezes.

– Ela faz muita falta... eu sei.

– Não. Não sabe. Pra você é diferente. Éramos só as duas. Sempre foi, desde que nasci. Você era como um fantasma que de vez em quando aparecia no Dia das Mães, levando presentes... Como se isso pudesse compensar a sua falta.

– Não era essa a intenção. São tantas as coisas que moram em mim...

– Sabe, essa sua casa... aquele quarto lá no corredor... não tem nada a ver comigo.

– Larissa... sei que minha vida pode parecer estranha pra você... mas você nunca foi estranha pra mim.

– O que você fez ou deixou de fazer não importa mais... Nem sei porque que tô aqui dizendo tudo isso... eu podia simplesmente pegar a minha mochila e ir embora... mas... é estranho... eu sinto a presença da vó Mercedes, aqui, nessa sala... como se ela quisesse dizer as coisas por mim...

– Então, gostaria de saber o que ela tem pra me dizer... Tenho certeza, minha filha, que, de onde está, ela pode ouvir a gente até quando a gente não diz nada.

Emudeceram-se. Beatriz e Larissa, mãe e filha, travaram diálogo silencioso, marcado apenas pelo barulho das engrenagens do relógio velho sobre o pequeno móvel de canto. Olharam-se profundamente como se pudessem ultrapassar os limites do tempo, que, no galope das horas, somou sete anos.

Era aquele o quadro pendurado na parede da memória de Larissa, agora, aos 25, na sala onde reencontrou a mãe biológica no passado, quando veio morar em Belo Horizonte. Chegada a hora de dar rumo às coisas deixadas por Beatriz, morta por aneurisma semana antes de completar 41 anos.

O interfone toca. É Carolina.

(Continua no próximo sábado)


Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 5/6/10

Nenhum comentário: