Vincent - Um solo de amor

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Poema de amor e morte

Cynthia Paulino (foto) é daquelas atrizes que todo mundo devia conhecer no tablado. Intérprete de recursos, faria bom texto falando até bula de remédio. A última canção de amor deste pequeno universo, em cartaz no Bairro Floresta, é boa oportunidade para quem ainda não conhece o trabalho da artista, que, vez por outra, desde Decameron, dirigida por Carlos Rocha, no início dos anos 1990, faz diferença nos palcos da cidade.

O novo trabalho da atriz com a Companhia de Teatro Adulto, inspirado em texto de Goethe (1749-1832), tem altos e baixos como tudo o que é experimental e apaixonado. Nele, acumulam créditos, especialmente, a dramaturgia, os figurinos (Paulo Mandatti e Cynthia Paulino) e as atuações de Cynthia, Rafael Neumayr e da revelação Alessandro Aued, que, comedido, sabe fazer brotar intenções. Salva-se até nos excessos coreográficos da direção. O que Pedro Piazzi – bisonho – e Paolo Mandatti, embora bom narrador, não conseguem superar. Com exceção de Creep, da banda Radiohead – já tão marcante em A inveja dos anjos, da Armazém Companhia de Teatro –, a trilha sonora é outro destaque da montagem.

Estão na encenação, também assinada por Cynthia Paulino, os maiores pecados de A última canção de amor deste pequeno universo. A diretora desliza ao desenhar quadrado frontal – à italiana – na semi-arena do Espaço Aberto Pierrot Lunar. Com isso, as plateias laterais, prejudicadas, assistem ao espetáculo de lado, com vários pontos cegos provocados pelo próprio elenco. Outra aposta desmedida é o gesto-palavra – físico e teatral – bem mais eficiente nas salas de estudo. Chega a ser chato ver um ator se debater sob a luz, na sobreposição do sentido.

Se por um lado, em A última canção..., a poesia de amor e morte de Goethe tem dramaturgia e roupagem eficientes, por outro, carece de olhar de fora apurador. Ainda assim, provocante, é bom programa para quem gosta do teatro essencial, que privilegia o ator e a palavra.


A ÚLTIMA CANÇÃO DE AMOR DESTE PEQUENO UNIVERSO
Hoje e amanhã, às 21h; domingo, às 19h, no Espaço Aberto Pierrot Lunar, Rua Ipiranga, 137, Floresta. Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia). Última semana.

Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 18/6/10

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