Fantástico - Vai fazer o quê?

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Eduardo, o samurai do Cruzeiro

Para quem faz do carro ferramenta de ganha-pão, um bom mecânico é como médico da família. Segunda-feira, pela manhã, fiquei na mão com o bravo de aço, companheiro de jornada. Pensei: “Eduardo nele”. Não deu outra: cedo ainda, com o sol a se levantar no horizonte, lá estava o bom amigo e mecânico. Com a simpatia que lhe é peculiar, identificou o mal do sujeito de lata, que, sem demora, funcionou perfeitamente. Pausa para um café, a máquina decidiu não mais pegar, sem mais nem porquê. “Vai ser melhor chamar o reboque”, disse o amigo depois de tentar reanimar o motor. Pelo celular, sem perder o sorriso e a calma luminosa, acionou outro bom parceiro de trabalho. Do outro lado da linha, o “amigão” do socorro pediu uma hora. Tempo para sentarmos embaixo de uma árvore e conversar sobre a vida. Daí, nossa Bandeira dois de hoje.

Impressiona-me as manobras de Deus com as peças no tabuleiro da vida. Somos as peças, não resta dúvida. E Deus (todo o bem que há em luz, energia e natureza) é o grande responsável pelo movimento que se dá aqui, nesse plano – tão inevitável quanto incompreensível. De resto, os sinais. Muitos sinais. Assim como a breve pausa naquela manhã de segunda-feira, com o problema mecânico que me tirou de circulação. Como diz o velho Botelho: “Em tudo temos lá as nossas compensações”. Em tempos de aperto, a feira do dia pode até fazer alguma diferença. Mas nem de longe é mais importante que a boa conversa com o admirável avô do Gabriel.

Desde que nos conhecemos – numa outra situação de aperto com o escudeiro de lata –, a amizade se fez com respeito e sinceridade. Troca justa e natural entre aqueles que valorizam a família e o compromisso acima de todas as coisas. No entanto, ainda não havíamos trocado histórias. Naquele tempo de espera pelo reboque, repassamos os momentos mais difíceis de nossas vidas. Relembramos com saudade, coração apertado e olhos em águas, da trágica perda de parentes amados, que partiram muito cedo. Falamos do Eduardo Júnior, da Gabriela, do Maurício, do Beto e da Maria Ângela, que, certamente, sorriem de onde estão agora.

Também, naquela prosa, não nos esquecemos de homenagear os que estão vivos e que nos são muito caros. Nossa razão maior de viver e de continuar na luta, entendendo que dinheiro e poder não compram saúde ou felicidade. Falamos da importância de valorizar o presente, com atitudes de amor, respeito e carinho em relação aos nossos familiares e amigos. Também esteve em pauta fé, lealdade, paciência e perseverança. O jeito pausado de dizer as palavras e a calma para lidar com os assuntos de importância me fizeram lembrar dos samurais que aprendi a admirar nos livros de artes marciais.

O reboque chegou já no fim da manhã. Junto do carrão, lá se foi o Eduardo, o mecânico-samurai do Bairro Cruzeiro. Aproveitei para tirar o dia de folga, telefonar para o pai, para os filhos e curtir a Violeta, mulher amada. Sem o carro, mas bem mais perto de Deus. Especialmente feliz com a vida e com o tudo que nela contém.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 9/6/10

Um comentário:

Cacá disse...

Isso aqui é um prazer renovado a cada leitura. Excelente crônica! Ótimo dia! Paz e bem.