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segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O terrorista do Ressaca



Tel – assim como a abreviatura de telefone. O sujeito de bem deixou de lado o nome de presidente norte-americano para tornar-se conhecido no mundo do terror como Tel, simplesmente. Diferentemente dos amigos da rede, entocados no Afeganistão, no Paquistão, no Cazaquistão e no Uzbequistão, Tel levava vida de paz no Ressaca, em Contagem, Região Metropolitana de Belo Horizonte. Moço de boa criação, gênio da informática – não havia máquina que o fizesse perder os cabelos – Tel vivia para os estudos. Aluno de engenharia da computação, com amplo conhecimento técnico em eletrônica e mecatrônica, o filho da dona Nazaré e do seu Raimundo queria apenas sossego para estudar.

Deu que, nos últimos tempos, nas cercanias do bairro de Tel, surgiram muitos sujeitos sem noção, apreciadores daqueles funks de baixo calão, com letras inimagináveis. Bastou um fim de semana de lixo sonoro no sobe e desce da rua para que o universitário, mestre em números e circuitos integrados, decidisse inventar algo que desse cabo naquele tormento. Antes, tentou conversar com alguns dos ignorantes. Falou com um, com outro, com mais dois, três, quatro… Nada. Aí é que o bando aumentou o volume e a provocação. Chegaram a estacionar as furrecas tunadas na porta da casa do estudante. Só de pirraça.

Tel sofreu ao ver os pais, velhos, com problemas de saúde, estarrecidos com a porcariada dita pelo homem e pela mulher desafinados, com voz de telessexo. “Ui pra cá, ai pra lá…” E tome os palavrões mais baixos e impublicáveis da história. Daí a decisão do universitário de virar terrorista contra todo e qualquer som que não prestasse. Três noites sem dormir, imerso em redes internacionais pela internet e pronto: projeto em mãos, foram 24 horas para a criação do “detonador de tunados” – um aparelho muito parecido com um secador de cabelos, potente em micro-ondas e feito com PVC. Nele, um amplificador de magnetron capaz de estragos num raio de quilômetros.

Assim que terminou a invenção, Tel subiu até a laje do sobrado em que morava e instalou uma super câmera móvel, capaz de varrer o bairro em 360 graus noite e dia. No quarto, diante do monitor de 32 polegadas, era só esperar pelo primeiro sem noção. Não demorou. Um uninho vagabundo, caindo em pedaços, com alto-falantes que valiam 20 vezes o motor e a lata velha juntos. “Tum tum tum…eu vou…” E foi… foi só uma dedada no detonador: sem sujeira ou explosão… Tudo na base das ondas eletromagnéticas. É. Até as rebimbocas da furreca travaram. O sem noção não entendeu nada. Desceu do carro e bicudou as rodas, irado com a bagaça. “Desgraça fedapu…” E tome bicudo na geringonça.

Tel não achou graça. Queria paz apenas. Incansável, não se contentou em ter que dar plantão para sentar o dedo nos sem noção. Pensou, pensou… E passou a madrugada em claro para inventar um receptor capaz de disparar automaticamente. Regulou o detonador para atingir apenas os alto-falantes e preservar os veículos. No final daquele dia, 1.137 furrecas tunadas conheceram o silêncio. Sucesso tamanho se espalhou pela web e novas armas contra o mau gosto já começam a ser produzidas em série nos EUA. Em breve, o bom gosto pode voltar a reinar o mundo e… “Tel! Tel, menino!”. “Ah!?”… Tel acordou no susto: lá fora, no Ressaca, um sem noção com o som indecente na maior altura trouxe o estudante de volta à realidade. “Tel! Levanta, meu filho! Vai perder a hora!”, gritou Dona Nazaré, no preparo da marmita.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

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