Van Gogh - Temporada 2017

Van Gogh - Temporada 2017
Estreia dia 17, no Teatro Marília

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O Natal da vida


Natal de 2010. Laura Gibosky, de 4 anos, pede ao Papai Noel uma bicicleta sem rodinhas. Já sabe se equilibrar. A estrela dourada no topo da árvore luminosa foi colocada pela menina. De véspera, o brinquedo “surge” amarrado ao balanço. Laura duvida: “Ah… ele não ia amarrar a bicicleta”. Na noite de celebração, com a família reunida em outra casa, Papai Noel, contratado para fazer a alegria da criançada, surpreende a mocinha: “Então, Laura… gostou do presente que deixei no balanço?”. Boquiaberta, num suspiro, a menina linda corre para os braços dos pais. Está certa da existência do bom velhinho. Noite de sonhos, viagem de férias, ano novo e a vida segue. Fim de janeiro, já de volta a Belo Horizonte, em novo passeio – desta vez longe dos pais –, uma carreta bitrem carregada com 37 toneladas de trigo faz estragos na alma. Conduzida por Leonardo Faria Hilário, de 24, de Mundo Novo (MS), arrasta 15 veículos engarrafados no Anel Rodoviário, matando cinco pessoas e ferindo outras 12. Uma delas, Laura Gibosky, levada de helicóptero ao Hospital João XXIII. Pai e mãe recebem a notícia: traumatismo no crânio, no abdômen e na perna esquerda, além de profundo estado de coma, com apenas 2% de chances de sobrevivência. Só um milagre para salvar a menina.

Natal de 2011. Num canto da sala de dois ambientes na casa de número seis, no Bairro Dona Clara, na Região da Pampulha, sob a mesma árvore da estrela dourada, Laura é o presente da vida no colo da mãe, Priscila Gibosky, de 34. O pai, Ricardo de Carvalho, de 45, não esconde a alegria de ter a filha em casa depois da tragédia no Anel. No primeiro semestre, em cinco meses de internação, foram várias as intervenções cirúrgicas. Yuri, o mocinho mais velho da casa, com 10 anos, pausa as estripulias com os amigos para se juntar à família. Lolla, a mascote maltês, faz festa para o registro. Retrato de fé, amor e união, que se renova no mais legítimo espírito do renascimento. Há uma luz a mais a cobrir a família. Laura, de olhos vivos, arrebatadora, parece buscar a lente da câmera. Linda, de batom, vestida na moda, de calça legging fusô preta e camisa vermelha com estampa da Sininho – a Tinkerbell dos dias atuais –, chama a atenção pela força da presença, que afasta o clima do nunca. Impossível ficar indiferente aos olhares da menina, que (ainda) não anda, não fala e pouco se movimenta.

Antes de Laura ganhar a sala, a atmosfera da entrevista de Ricardo e Priscila ao Estado de Minas é uma miscelânea de sentimentos: dor pela morte de Ana Flávia, de 2, prima de Laura, que não sobreviveu ao acidente; revolta por conta da impunidade nas tragédias do trânsito e o descaso com o Anel Rodoviário; tristeza por saber de mocinha tão ativa ter a vida ao avesso; alegria pelo milagre da sobrevivência; esperança pela recuperação, ainda que lenta; e receio por mais uma cirurgia que se aproxima. A família acaba de receber a notícia da necessidade de mais uma intervenção no cérebro da garota. Uma válvula no sistema ventricular. Batalha longa e desgastante pela vida, que não afeta o otimismo de Ricardo e Priscila. Advogados de sucesso, ambos foram obrigados a rever a carreira para dar conta de dar atenção especial às circunstâncias. Apesar de a infraestrutura hospitalar 24 horas em casa ser mantida por convênio médico, os custos descobertos chegam a R$ 6 mil mensais, com alimentação, medicamentos e assistência particular.

De todos os sentimentos percebidos em duas horas de conversa, sobressaem o amor e a esperança. Priscila é mais força. Ricardo é mais sorriso. A mãe respira fundo repetidas vezes e tenta segurar as inquietações de quem demonstra amar além de todas as contas. Não se contém e desaba uma, duas vezes. O pai, desenvolto, chora por vezes. Sorrindo, derrama lágrimas enxutas pelas costas da mão. Explica o sentimento de “quebra no tempo e no espaço”, vivido desde o fatídico 28 de janeiro. “Primeiro, o choque com a quase morte, o vazio. Depois, o porquê. A gente tentava entender… por que com a nossa família? Em seguida, veio a realidade de UTI, com várias tragédias reunidas no mesmo lugar. E a gente unido, lutando contra todas as previsões. Todo dia sabendo que ela podia morrer e, ao mesmo tempo, comemorando um novo dia”, relata.

Ao falar de julho, mês em que Laura deixou o hospital, voltou para casa e comemorou 5 anos, o advogado abre ainda mais a envergadura do sorriso e fala de dias melhores: “Depois de tudo, uma fase muito boa de motivos de festa por cada conquista”. Comenta as dificuldades encaradas com determinação por todos os amigos e familiares e considera as incertezas com o futuro trazidas pelo quadro de paralisia cerebral. Priscila reconhece: “Não é fácil. Tem dias que falta força para sair da cama”. No entanto, fortalecida por nova dose de esperança a cada instante, apega-se à fé na recuperação da filha. “A verdade é que ninguém sabe nada do cérebro. As melhoras vêm do próprio cérebro. Os médicos acreditam que, como a Laura já tinha registros quando ocorreu o acidente, a recuperação seja possível.” Longe dos casados comuns, pai e mãe exibem cumplicidade admirável durante toda a conversa. Fazem-se soma e equilíbrio: ele fé, ela comunhão.

Há 17 anos juntos, Ricardo e Priscila fazem dos momentos mais difíceis razão para crescer. Mão e luva, se amparam para superar a dureza da síndrome pós-traumática. Demonstram olhar diferenciado sobre os dramas dos outros e se apegam às pequenas conquistas diárias de Laura. “Em todas as famílias, você vai vendo que cada um tem lá as suas tragédias”, diz Ricardo, que, daqui para a frente, só pensa na melhor maneira de trazer Laura para a própria vida como ela é, sem pensar apenas no futuro, vivendo o presente com a maior integridade possível. “Quero ter alegria. Parece que a sociedade, no fundo, quer ver você triste. Algumas pessoas se espantam com o mínimo de alegria preservada em você”, lamenta o professor. Muito emocionado, desabafa: “Quero viver o hoje da minha filha. Não quero mais viver de passado e com medo de não tê-la mais”.

Priscila vai até o andar de cima buscar Laura. No quintal, Yuri é pura energia com os amigos. “Filho, vamos fazer uma foto!”, convoca o pai. O garoto reclama. Natural. Não quer deixar a farra com os vizinhos. Ali, é tarde de água boa sob a chuva fina. Com a chegada de Laura na sala, a cadela maltês faz festa. A imagem da mocinha na escadaria, no colo de Priscila, parece pintura. Mãe e filha num cuidado de dar gosto. A advogada, funcionária pública licenciada, tem mais vida e luz na expressão de encanto. Deixa de lado qualquer resquício do que é lúgubre para dar espaço ao que é somente beleza. É preciso repetir: Laura é linda. Olhos profundos cheios de vida por viver. Pele bem cuidada que faz mínimas as cicatrizes do corpo. Boca vermelha, entreaberta, de quem sabe agradecer em silêncio. “No final, peça para que todo mundo continue orando por ela”, apela o coração da mãe. Do lado de fora, a bicicletinha sem rodinhas ainda espera por Laura, milagre da vida.

Estado de Minas - 25/12/11 - Jefferson da Fonseca Coutinho
Foto: Maria Tereza Correia/EM/D.A Press

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