Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O golpe do adeus


Erre era um pirralho espinhento que cheirava a fraldas. Tinha acabado de completar 13, mas não parecia ter 10. Franzino, metidíssimo a brigador. Ainda mais depois que a TV começou a dar destaque para competições de pancadaria: “Foda demais!”, dizia sorrindo, feliz da vida, toda vez que via sangue jorrar na telinha, sob a narração do locutor abestalhado, histriônico. Coisas da grana, da publicidade... fazer o quê!? Há quem diga não haver o que o dinheiro não compre. E lá, no interior de Minas, na cidadezinha de nome doce, Erre não desgrudava da televisão nos dias de porrada. Valia tudo para torcer pelo mais “foda”. Até bicudar a mãe, grávida, doente e descasada.

– Sai da minha frente, mãe! Já tá começando, porra!
– Não saio. É tarde, minino! Vai pra cama! Já falei!
– Pra cama o cacete! Toma!

E a porrada começou ali, em casa mesmo, na mãe, em frente à TV, comprada em 24 prestações pela coitada da diarista. Com problemas de circulação – não havia cirurgia que desse jeito nas veias da dona Maria –, a mãe do pequeno diabo teve ferida aberta na altura da canela. Bicudo do Erre, filho mais velho, chegado em violência. Mais, muito mais, depois que ele aprendeu na TV que ser bom de porrada podia ser legal. Até sonhou ser famoso e ganhar muito dinheiro distribuindo socos e pontapés. Tanto que começou a treinar em casa e com a vizinhança.

Dos moradores da Rua do Chuvisco, Eme, de 16 anos, mocinha tímida, evangélica, era quem mais sofria com os ataques de fúria do Erre. O garoto infernizava a menina. E até tentou estuprá-la sob a luz do dia. Aproveitou que os pais de Eme estavam na Igreja e invadiu a casa dela num domingo de manhã. Ela estava de cama, febril, se recuperando de pneumonia. Erre saltou em cima da moça e forçou arrancar suas roupas. Eme, movida por força fora do comum, conseguiu jogar o moleque para fora do cômodo e trancar a porta. Furioso, Erre quebrou e ateou fogo na casa. Com o braço esquerdo quebrado e com o rosto em sangue por corte profundo na testa, Eme conseguiu saltar a janela e correr para a casa de fundos, do vizinho aposentado.

Foi o seu Antônio quem resolveu dar cabo na situação e chamou a polícia para o infeliz. Procurado e apreendido, Erre foi parar em casa para menores infratores. Lá, em três dias, sentou a mão em pelo menos dez garotos. Sentiu-se o campeão da pancadaria. Nocauteou até assistente social com pernada na cabeça. Imbatível, saltou o muro do lugar e correu, campeão, para o golpe do adeus. Só parou na BR-381, atropelado por caminhão de televisores de última geração.


Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 21/11/11

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