Van Gogh - Temporada 2017

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Estreia dia 17, no Teatro Marília

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Tapioca, o pescador


No fim dos anos 1960, quando os pais se separaram, Leo foi morar com a mãe na casinha de praia da família, na Barra do Itapemirim, no Espírito Santo. Moleque, branquelo e mineiríssimo – cheio de sôs e uais –, Leo não conseguia se enturmar. Sentia saudades demais do pai, que havia ficado em Belo Horizonte, em frangalhos com o fim do casamento de 8 anos. O menino, que já era calado, emudeceu-se de vez. Terminado o verão, o litoral ficou vazio. Forte ali, na época, era o turismo. Nas férias, a mineirada toda descia para o Espírito Santo. Para Leo, a saudade de Minas apertava mais do que ele dava conta. Tanto que ele não parecia fazer muita questão de viver e usava e abusava da sorte em aventuras de grande perigo.

Até atravessar o Rio Itapemirim, no seu trecho mais perigoso, no Pontal, onde suas águas se encontravam com o mar, Leo atravessou. Saltou das pedras – mesmo sem saber nadar muito bem – e deu conta de chegar na prainha. Na volta, no braço exausto, o desespero. Só não morreu afogado porque foi salvo por garoto nativo, pescador, que passava de canoa. Tapioca, menino descolado, dois anos mais velho, pescava para ajudar em casa. Vida salva, ficou a amizade que marcou a infância do mineirinho, filho de seu José e da dona Maria. Leo se apegou ao exemplo de luta do capixaba e quis batalhar para crescer na vida. Assim, pequeninho, aos 10 anos, Leo, quando não estava na escola, também pescava no Itapemirim.

Leo juntou dinheiro para voltar para Belo Horizonte. A mãe não deu conta de segurar o garoto, que voltou para morar com o pai. Tapioca, o amigo, continuou a ganhar a vida com a pesca. O tempo, no descer e subir das marés, passou como as águas. E lá se foram mais de 40 anos. De volta, a prainha, estudadíssimo, careca e barrigudo, em julho deste ano, Leo quis rever o amigo de infância. “Sabe onde posso encontrar o Tapioca?”, perguntou ao velho peixeiro no Porto da Barra, que apontou à margem do rio, junto às pedras. Lá, um pequeno barco a motor, de nome “Sossego”. O homem, de pele muito curtida pelo sol, lavava a proa e ouvia Roberto Carlos. “Mineiro!? Cadê o cabelo, maluco?”, perguntou sorrindo, depois de reconhecer Leo.

Abraçaram-se como dois irmãos. Falaram das mulheres e dos filhos. Mostraram fotografias dos pequenos, já crescidos, e lamentaram a perda dos parentes amados. Tapioca, o pescador, e Leo, o engenheiro, passaram a tarde sentados no barco, relembrando os tempos de garotos. Conversaram sobre muitas coisas. Um, enriquecido, viajado, conhecedor de vários pedaços do mundo. O outro, homem simples, que jamais deixou o Espírito Santo. Trabalha apenas 6 horas por dia, seis meses por ano. A maior parte do tempo, Tapioca dedica à mulher e aos cinco filhos. Leo, em folga rara de feriado, luta 18 horas diárias para se manter em multinacional. Escravo da tecnologia, não vive sem iPhone, iPad e iMac. Já Tapioca, alheio a tudo o que é modernidade, nem sabe o que é Facebook.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 28/11/11

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