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segunda-feira, 25 de junho de 2012

O segredo do Figueiredo


“É FiGUEIredo, meu amigo! GUEIredo! Não é FiGUEREdo! Tem o “i”... Preste atenção! Vaca!”, esbraveja o comerciante estúpido, ao celular, com o atendente da operadora de telefonia. “Pelas minhas barbas e pelos meus bigodes! É muita incompetência! O povinho burro! Olhe só, Malu... Me deixaram esperando de novo! Chega!”, desligou, furiosíssimo, o aparelho de ponta, tatuado pela maçã mordida.

Figueiredo, vendedor de bebidas, de 44 anos, pai do Juliano e do Gustavo, estava que não se aguentava com uns chiados que surgiram nos últimos dias em sua linha telefônica móvel. Ele tinha aquele aparelho como bem dos mais importantes de toda a vida. Era sua conexão com o mundo, plataforma de seus silêncios mais profundos. A qualquer hora do dia, em qualquer lugar da casa, era só o dedo correndo solto na tela de cristal liquído. Malu, vivia de pensar: “Aí tem coisa...”.

Ela, boa moça de Sete Lagoas, de 41, professora, reclamava vez por outra com as amigas: “Tem seis meses que ele não me toca... seis meses! E da última vez... pareceu que ia vomitar”, chorou, na semana passada, com colega de profissão secreta. Solidária, a amiga de infância, Kamura, decidiu ajudar: “Malu, desde que o Otacílio me deixou, estou trabalhando como detetive particular para uma agência muito discreta em Belo Horizonte. Se quiser, posso investigar o Figueiredo pra você...”.

O zumbido estranho no iPhone do Figueiredo era resultado da conversa de Malu com a detetive Kamura, que, espiã, grampeou o telefone do comerciante. Naquela manhã de domingo, depois dos aborrecimentos com a atendente da operadora, Figueiredo soltou a frase de todas as noites e fins de semana, nos últimos três anos: “Vou sair com uns amigos, Malu”. O sujeito só não sabia que Kamura, no comando de mais dois agentes, estava na cola, pronta para dissolver a farsa do careca bruto.

A detetive já tinha material suficiente para desmascarar o traíra. Em três dias, foram 19 diálogos, além de duas dezenas de mensagens comprometedoras rastreadas por aplicativo espião no mimo do Figueiredo. Faltavam apenas imagens para o dossiê. E foi em plena luz do dia, em quebrada da Zona Norte, que o binóculo fotográfico da investigadora registrou os lances mais indecentes, inimagináveis, do homem da voz grossa, mentiroso, pai de família.

De posse de documentação de fazer inveja ao serviço secreto americano, Malu, de olhos fundos e coração partido, enquadrou o marido com quem passou 15 anos de sua vida: “Gay, Figueiredo!? Gay!?”

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 25/6/12

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