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terça-feira, 26 de junho de 2012

Um anjo nas trevas


Hoje, estreia de "A casa das ilusões", na PUC Minas, é dia de compartilhar Genet:


 Por Flávio Viegas Amoreira*

Imaginem uma criança abandonada no nascimento, entregue a um orfanato e aos 8 adotado por uma família de camponeses; aos 10 anos acusado de furto enviado a reformatório: acaba encarnando o papel que a sociedade o imputa, torna-se ladrão. Cresce em meio a marginais, exilado como um errante pela Europa no entre-guerra, cai na mendicância e no submundo: seu desejo amoroso homossexual era um agravante para uma sociedade ainda não aberta a afetividades incompreendidas. De prostíbulos a prisões, aos 30 anos descobre a literatura em contato com intelectuais encarcerados pelos nazistas; lê Proust e nos calabouços de Paris nasce o maior dramaturgo francês do século XX e um dos maiores romancistas do Ocidente. Colocado em liberdade pela ação de Sartre, Camus e Cocteau, molda a figura do maldito sacralizado: com Lautréamont, Rimbaud, Artaud, o quarteto de “poetas malditos”. 

Descobri Genet aos 15 anos lendo Nossa Senhora das Flores, Diário de um ladrão e Querelle, seguido impacto de ler o libertário André Gide e assistir ao clássico de Fassbinder, o mesmo Querelle interpretado por Brad Davis, Franco Nero e a maior atriz européia viva: Jeanne Moreau. Bom! um artigo não é uma Wikipédia, expresso tanto devo à obra de Genet e convite a seu universo. No Brasil, Genet foi descoberto por Patrícia Galvão: sempre Pagu! No teatro, O Balcão, um primor de simbolismos sociais e existenciais, adaptada em plena ditadura, dirigida pelo argentino Victor Garcia, produzida por Ruth Escobar que hospedou Genet, contou no elenco estelar com 2 santistas: Sérgio Mamberti e Jonas Mello. Genet era poesia em todos suportes, gêneros; um autor que expôs as vísceras da condição humana, sem nenhuma concessão à burguesia, denunciou a hipocrisia dos mecanismos sociais e a intransponível solidão de almas variando entre a santidade e a torpeza. A solidariedade entre dois indigentes esmolando pelas ruas de Barcelona em O diário de um ladrão talvez seja uma das mais pungentes páginas da generosidade entre a degradação que li. 

Genet deve ser redescoberto, novamente encenado e para compreendê-lo duas senhas: Saint-Genet de Sartre e Genet: uma biografia de Edmund White. Consagrado, seguiu transgredindo, escandalizando, provocando. Mas à Genet tudo era permitido: colecionou amantes, mas era pela palavra que atingia o êxtase se despindo em poderosas metáforas. Genet traça um panorama fiel da atmosfera das cidades portuárias: o crime, a traição, a volúpia são brumas que envolvem o cais de Brest, a costa de Tanger ou ladeiras de Marselha. A lascívia do marinheiro, a sordidez do bandido, o sacrifício do monge : “Querelle tinha então o sentimento de uma outra solidão: aquela de sua singularidade criadora”. Xangai, Casablanca, Hamburgo: a Arte viceja no deserto, numa cela promíscua, monástica e especialmente no grande elemento que nos espelha, artistas: o Oceano-Mar. Wilde dizia que a sociedade pode perdoar até o criminoso, jamais o artista: nada mais subversivo em nosso mundo onde tudo deve servir para algo, que a Arte, essa subversiva “inutileza” para quem não sente profundo. Batedor de carteira, gigolô, Genet nunca foi aceito pela “boa sociedade” por ser artista. Os gregos, Cervantes, Wilde, Tennessee Williams; Genet foi último a expor vísceras do Homem no virtuosismo frásico. Genet deve ser lido para compreendermos dois atributos humanos insondáveis: a consciência e a crueldade. 19 de dezembro, Genet 100 anos!


        1980, puta tesão por Brad Davis desde O expresso da meia-noite e me sentindo Franco Nero, aquele Aschenbach de Genet roubado de Thomas Mann espreitando a macheza de “Querelle”. Só um homem do mar, um costeiro, um maldito, homem com desejo por homens é capaz de tornar palpável Genet? Talvez! Mas não curto reducionismo, amor Henry Miller, e não fui acostumado com tantas bucetas como o autor de Trópico de Cancêr. Importa a poeticidade de um Proust avesso: frase por frase, Genet compõe um inventário de sensações, de tatos, epidermes: os lábios e o cu, as coxas, o toque dos fluídos, a sordidez ritualizada como ascese:


        Genet sabe que enrabar é de uma subversão deleuziana? Genet nunca leu Deleuz, caralho! Mas intuía a possibilidade de rompimento no coito sem fecundação. “Filhos pelas costas é ele quem faz. Ele dá um gosto perverso (quem nem Freud nem Marx jamais deram a ninguém, ao contrário): o gosto para cada um de dizer coisas simples em nome próprio, de falar por afetos, intensidades, experiências, experimentações. Dizer algo em nome próprio é muito curioso, pois não é em absoluto quando nos tomamos por um eu, por uma pessoa ou um sujeito que falamos em nosso nome”.

        Falo de Genet como quem toca um instrumento de ouvido: sem Wikipédia! Sem academicismo! Mas adoro essa passagem das Conversações de Deleuze. Antecedentes? A balada dos enforcados, de François Villon, anuncia Genet 700 anos nesse jogo de cutucar a ver se fura o muro espesso do engessamento de emoções por sistemas, dogmas e estratificações. Mas Genet curtia a lei a negando: tinha tesão também na hierarquia, só por ela é capaz de fazer o contraponto pela perversão. O crime é refém indissociável da lei. Genet pede ser lido ao som de Henyrk Górecky ou Arvo Part: é um missal, liturgicamente indefeso diante da sociedade onde foi posto: Genet vomita asco, regurgita nexo: é um decodificador de indignações. “Gêner” em francês, bem me lembra o amigo e escritor Jediel Gonçalves, é incomodar: ninguém assustou tanto e demoliu ortodoxias quanto Genet. “A ideia de homicídio evoca frequentemente a ideia de mar, de marinheiros. Mar e marinheiros não se apresentando com a precisão de uma imagem, é antes o homicídio que faz a emoção inundar-nos por ondas. Se os portos são o palco repetido de crimes, a explicação disso, que não levaremos a cabo, é fácil: mas numerosas são as crônicas onde se sabe que o assassino era um navegador falso ou verdadeiro; e se ele é falso, o crime por sua vez tem relações mais estreitas com o mar”. Essa abertura de Querelle que me fascina como os textos de Conrad ou Stevenson sobre o oceano e suas implicações estéticas e mesmo ideológicas no sentido amplo duma ética auto-erigida sobre os escombros do conformismo que os homens de bordo vem amesquinhar o cotidiano dos gentis homens de terra firme sob os alicerces da caretice consentida.

        “Compara o masturbador solitário na prisão com o escritor inspirado. Sonha com um homem sádico poderoso e impiedoso, e seu Ganimedes bonito e louro. Eleva o amor homossexual em geral e a felação em particular, usando figuras poéticas derivadas de Villon, Ronsard, Baudelaire e Rimbaud” - assim narra Edmund White: o escritor é o autor em palavras de uma felação ou ejaculação masturbatória com acaso da criação forjado por um prazer inumano de expressão: erotismo do discurso exorbitado da significação usual das coisas dadas e convencionadas. A lei, a ordem! Como necessitam do álibi avesso da transgressão para perpetuar sua tirania: “Se não houvesse juiz, onde iríamos parar? Mas se não houvesse ladrões...” - diz o próprio magistrado em O balcão. É Genet quem sentencia nossa condição de desterrados: “Estamos todos condenados a uma reclusão solitária no interior de nossa pele”. Ele nos diz da intransferibilidade, impermeabilidade irredutível de nossos sentimentos e sensações mais recônditas: ninguém sabe o que é sentir além do seu testemunho do sentir. Segue Genet nos apontando: “É a realidade que vocês tem diante de si que é uma ilusão e o que vocês captam em minha ficção teatral é a análise lúcida da sua sociedade apodrecida”. Na costura de meus espantos recebe a unção da escritura: o inferno na vida é um homem é o deserto de amor, o oásis do amor é desespero desejante. Genet queria: a interdição traçava o verbo. Não o desconsolo, o desespero, não o vazio, o esgotamento. 

Sartre é insuperável: O que desejava ele dizer, exatamente? Que estava se perdendo em si mesmo, não conseguia sentir-se culpado e, entretanto, esforçava-se para julgar-se severamente, que parecia se ao mesmo tempo um monstro e uma vítima inocente, que não confiava mais na na sua vontade de corrigir-se e entretanto tinha um medo terrível do seu destino, que sentia vergonha, desejava que sua falta se apagasse, mesmo sabendo irremediável, que morria de vontade de amar, de ser amado, e sofria, acima de tudo com essa exclusão atroz e incompreensível, que suplicava ser reintegrado ao seio da comunidade e que o deixassem recuperar a sua inocência. “Toda coragem era do menino buscando remissão: um senso católico, martiriológico e uma misoginia que remetia à um paixão pela virgem não profanada: a mãe desconhecida. Genet era, como homossexual, absolutamente masculino: não queria ferir a imaculada visão inatingível da mulher. Genet me fez entender aspectos vitais em minhas idiossincrasias: Genet nega o viado e exalta o sodomita ritualístico: não se prende a apetrechos, é todo ele um ser inteiriço em seu estilhaçado desconforto. 

O amor de indigentes em Diário de um ladrão: “Os piolhos nos habitavam. Os meus amores com Salvador duraram seis meses. Não foram os mais estonteantes, mas foram os mais fecundos. Eu conseguira gostar do corpo frágil, do rosto inexpressivo, da barba rala e ridiculamente plantada. Salvador tomava conta de mim, mas durante a noite, à luz da vela, eu procurava nas costuras da sua calça os piolhos, os nossos piolhos”. Dois mendigos, dois pederastas amantíssimos! Não viadinhos “fashions” ou entendidos “descolados”. Sodoma em Genet é o purgatório para chegar ao Paraíso do amalgamento do espírito: Genet busca ser rocha, rio, santificado nome pela palavra para completude no verbo, impossibilitada pela plenitude do corpo impenetrável sem a força do espírito. Saúdo Genet, como um fiel enobrece seu mago andante. 

*Flávio Viegas Amoreira, escritor, jornalista e crítico literário, já lançou 8 livros entre poesia, contos e romance. Faz parte da denominada “Geração 00”, representantes da Novíssima Literatura Brasileira. Atua em movimentos de direitos GLS e em defesa de políticas públicas para Cultura. (Dezembro de 2010)

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