Van Gogh - Temporada 2017

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Estreia dia 17, no Teatro Marília

segunda-feira, 28 de maio de 2012

A fome dos descasados


“A vista é de endoidar”, exibe o corretor anão, na ponta dos pés. Matias viu o Bairro Serra, emoldurado pela esquadria de alumínio, sob o sol da manhã. “Fechado”, acordou o aluguel do 902, ali, na hora. Um modesto apartamento de dois quartos, reformado, em prédio de 12 andares, com mais de 20 anos de construção na Rua do Ouro. O professor universitário, bom moço, juntou força e coragem para buscar novo lar e sair de casamento ruim, com periguete do Bairro Planalto – a sicrana, mesmo depois de casada, seguiu ficando com todo bicho homem que encontrou pela frente. Com 24 meses de tormento, Matias sentiu que era hora de dar novo rumo da vida. Deixou a casa montada com o suor do trabalho e partiu com um fiatizinho e a roupa do corpo.

Sem móvel algum ou panela qualquer, não sabia bem como recomeçar. No dia em que pegou as chaves, comprou colchãozinho azul, em flores, para passar sua primeira noite no apartamento. Sentiu-se importante ao deixar o carro na garagem apertada, entre colunas, tomar o elevador e cravar a chave de aço na fechadura. Achou curioso, no corredor, cruzar com mulher loura, belíssima, também de colchãozinho azul, em flores, igual ao seu, sob o braço. Entrou na sala, acendeu a luz, trancou a porta e, tomado por sentimento distante, pulou como criança, movido por estranha euforia: “Uhuuuuu!”. Vindo de fora, Matias ouviu outro “Uhuuuuuuuu!!!”. Não era eco. O professor foi até a janela e viu a loura do corredor, saltitante, na sala do apartamento vizinho, 904.

Lá estava ela, linda, dançando sozinha, feliz, de olhos fechados, no imóvel igualmente vazio, descortinado. Matias ficou por instantes a admirar a alegria da estranha. Ao ser percebido por ela, sorridente, ele, sem graça, afastou-se da janela e voltou a curtir a própria condição de descasado. “Livre! Graças a Deus, livre!”, repetia para si mesmo. Esquadrinhou cada canto do imóvel tomado por paz interior sem tamanho. Chegou a deixar escapar lágrima de felicidade ao topar com as luzes da cidade na belíssima vista do janelão principal. Veio a fome e Matias sacou o celular para pedir pizza. Deu o novo endereço com a boca cheia para a atendente, que anotou o pedido. “De 30 a 40 minutos, senhor”. O professor não tinha pressa. Tirou da mochila garrafa de espumante e sacou a rolha com o entusiasmo de quem vence prêmio de Fórmula 1.

Barulho semelhante ao provocado pelo saltar da rolha também veio do 904. Matias, curioso, voltou à janela e viu a loura com garrafa da mesma marca em uma das mãos. Debruçados na esquadria de alumínio, afastados metros pelo vão do prédio, ambos sorriram em brinde. “Sara”, ela diz. “Matias”, ele corresponde. O interfone toca e anuncia a massa gigante marguerita. Duas. Idênticas. Uma também para o 902. Portas brancas abertas ao mesmo tempo para receber o motoqueiro da pizzaria. Olhos nos olhos dos descasados famintos. O rapaz percebe o clima, agradece a gorjeta e caça rumo. Já o homem e a mulher, livres, vararam a madrugada na maior comilança.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 28/5/12

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