Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 7 de maio de 2012

A bandeira do abraço

 Antonio Edson, o Edinho, de 43 anos, mecânico dos bons lá do Bairro Guarani, na Região Norte de Belo Horizonte, andava enfrentando a maior barra com os males do coração. Tanto que, agora, fim de madrugada, com o sol pronto para rasgar o horizonte, estava em lágrimas, abraçado ao taxista bigodudo de sorriso amarelo, na Praça da Estação.

Antes, para o amigo leitor entender o inusitado da cena, é preciso voltar horas no tempo, no cair da noite, na Rua da Bahia. Quando Edinho, andante, peito de amor doído, resolveu perambular sozinho, desgarrado, para espairecer a ideia abatida. Entrou no Teatro da Cidade, sempre de portas abertas, e viu drama de morte severina. No fim da peça, derramou o molhado dos olhos que a seca bebe e desceu a rua para matar a sede de aguardente.

Antonio Edson passou pelo restaurante lotado, 24h, mas não queria movimento. Preferiu entrar no Edifício Maletta e vencer a escada de aço escangalhada. Sorriu sem graça para o sujeito desdentado e arranjou mesa no canto, afastada. O rádio tocava qualquer coisa de fossa feita por um tal Vander Lee. Música boa, porém, de doer a alma. Edinho acendeu cigarro picado só para contrariar o pavor pelo fumo Tragou fundo como se quisesse incendiar as próprias vísceras. Virou uma, duas, três doses de pinga barata e suspirou como quem quer ver Jesus.

Amargurado, Edinho observa mesa de grupo fanfarrão e não dá mole para a alegria. Deixa nota amarelada na mesa sem se preocupar com o troco. Faz gesto seco para o dono do estabelecimento e volta ao rumo da rua. Desce desnorteado, atravessa a Avenida Afonso Pena e acaba indo parar na parte mais baixa, no quarteirão das putas tristes. Lamentou a sorte dos homens sós, dos casados traíras e esquadrinhou os hotéis fedorentos. A madrugada avançava quando Edinho, por fim, achou melhor tomar carro de aluguel e voltar para casa. Amargou mais meia hora vazia até conseguir parar sedan branco de placa luminosa, com o motorista gordão em cara de sono.

Edinho, descasado e sem filhos, olhou para o taxista e disse num só sopro, dando liberdade a voz do espírito: "Amigo, eu pago a bandeira. Mas não precisa partir... só quero um abraço... bem apertado. Um abraço apenas". E, ali, no Bulevar Arrudas, o mecânico carente e o taxista auxiliar ficaram unidos por hora: como dois irmãos.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 7/5/12

Nenhum comentário: