Fantástico - Vai fazer o quê?

domingo, 13 de maio de 2012

Casa da vida

Texto: Jefferson da Fonseca Coutinho
Fotos: Juliana Flister

Minha mãe morreu “menina” ainda, aos 66 anos, no Dia das Crianças. Um coágulo depois de cirurgia besta e lá se foi Maria. Uma dor na lembrança. Quem já perdeu sabe, melhor que ninguém, a falta que a mãe faz. O tempo fortalece o coração, mas não dá conta da saudade. Não há melhor mulher que a mãe, é fato. Para homenagear aquela que traz à luz o homem, o Estado de Minas passou 24 horas no Hospital Sofia Feldman (HSF), maior maternidade de Minas Gerais, terceira maior do país, com mais de 800 partos por mês. Foi lá que, entre 125 mulheres de várias idades e de toda sorte, encontramos Morgana, Dayse, Aline, Leide, Andrea, Poliana, Janaína, Rosemary, Eunice, Vitória, Adriana, Natane, Madalena, Tatiana, Any, Jussara, Isadora, Ariane, Cláudia, Luciana, Kênia, Jéssica, Regina, Arielly, Camila e Jaqueline, ainda mais queridas neste domingo.

Não há luxo de hotelaria, tampouco camisolas de panos caros. Tudo é muito simples e toda a atenção é voltada para a melhor hora da gestante. Na portaria o movimento é grande, com cuidados voltados para a classificação da urgência de caso a caso. Da triagem para dentro, a aventura do nascimento. "Nasceu!" é a palavra festiva que se repete, dia e noite, em bom tom e intenção, entre os profissionais. Médicos, enfermeiros, doulas (espécie de parteira à moda antiga, sem ação direta)  e auxiliares movimentam os postos, corredores e quartos da maternidade, envolvidos por trabalho permanente. Ali, com média de 26 partos diários, há sempre um bebê no caminho da luz, sem pressa, no tempo da vida.

Com 75% de partos normais, no HSF busca-se, na medida do possível, dar unicamente ao bebê o instante do parto. Monitoradas, as gestantes chegam a caminhar horas pelos corredores em favor do momento. Jaqueline de Souza Lopes, de 38, anda em silêncio. Vai e volta por vezes em passos calmos, mãos unidas para trás e o pensamento longe. Educada, sorri pelo cumprimento. Está com 41 semanas. Grávida pela segunda vez, quer ter Guilherme sem nenhuma intervenção. A professora está há mais de 10 horas na maternidade. Cai a noite. Nos quartos batizados Dona Beja, Maria Nazareth, Adélia Prado, Yara Tupynambá e Chica da Silva, gemidos, gritos e sussurros. Por fim, o choro na garganta miúda, esperado por longos meses.

Na esquina reversível, transformada em sala de anestesia, o sonar mede o batimento cardiofetal (BCF). É o som da saúde de André, de 41 semanas, ainda no ventre da mãe, Adriana Santana, de 28. Ela acarinha a barriga para afagar o mocinho, que não parece ter pressa. A enfermeira obstetra Daniela Campolina, de 37, conta: "136… o ideal é entre 120 e 160. Está indo bem". Janaína Rodrigues de Oliveira, de 23, grita. É Marcus Vinícius, de 40 semanas, que decidiu mostrar a carinha em passagem normal. Mais gritos no quarto ao lado, de cor azul. O pequeno Renan, de 41 semanas, está bem perto de conhecer a beleza da mãe Camila Duelis, de 20. A técnica em meio ambiente quer muito o parto natural.

Jaqueline continua a passear pelo hospital. Agora, acompanhada pelo marido, Eduardo de Moraes Torres Júnior, de 38, microempresário. Na mulher, ainda o silêncio de história triste, deixada para trás. Ainda não é hora. Na balança, peladão, Yuri, serelepe, com 3,815kg. "É a cara do pai", diz Poliana Inácia Felix, de 21, garçonete, aliviada com o parto normal. "Era o que eu mais queria", comemora. Áurea Damascena Poles, de 60, doula da noite, comenta o gosto pelo serviço voluntário. "Venho feliz. Por toda a noite. É emocionante segurar a mão da mãe na hora do nascimento da criança", diz.

Os gemidos não cessam. É a hora e a vez de Maria Eduarda, de 40 semanas e dois dias. O "quinto e último" parto de Rosemary Barbosa, de 33, mãe também de Patrícia, de 12, Werikliander, de 10, Mateus, de 5, e José, de 2. Pelo corredor, passos firmes, o dr. William de Aguiar Fontes, de 30, médico de Camila Duelis. Para o obstetra, defensor do parto humanizado, é preciso reverter a ideia de que "a mulher que não tem dinheiro 'sofre' o parto normal, enquanto a mulher de recursos 'ganha' de cesariana". Camila segue firme com o propósito de parto natural. É chegada a hora de conhecer o filho. Não foi fácil. Com o uso de fórceps de alívio, às 22h50, com 47cm e 3,550kg, enfim, ganha a cena Renan, "o renascido em Deus".

No sexto andar, espaço democrático da refeição, mamães, acompanhantes e funcionários fazem fila para o macarrão com legumes e carne cozida. A comida é boa e a companhia melhor ainda. Regina Ramires Romão, de 40, nina Alice Mariah, vinda ao mundo pela manhã. Bela, nascida sob as águas. Na TV de tela plana, novela para pura distração. Dois andares abaixo, corre-corre com uma mãe em apuros.  Uma equipe de 10 pessoas faz a transferência de Eunice Ferreira da Silva, de 35, para o setor de gravidez de alto risco. Mãe e filha, Vitória, prematura, passaram por maus bocados por eclampsia, mas já estão bem. Desfeito o susto, a madrugada de lua cheia segue rara: tranquila.

Guilherme, o filho da professora andante Jaqueline, nasce às 3h08. Cesárea. Tempo de descanso depois de 19 horas de hospital. Às 4h25, Jussara dos Anjos Faria, de 29, tem no peito Isadora, de 39 semanas. "Engravidei em Porto Seguro. Sou chique, bem!", faz graça. Mais um choro de garganta miúda: Ismael, filho de Madalena Bonjardim, de 32. A doméstica, mãe de quatro filhos, já é quase avó. O filho Jefferson, de 17, está para ser pai. "Meu Deus do céu! É a minha filha! A minha filha!" ecoa em meio aos gritos de dor, de cócoras, no quarto Leila Diniz, no anexo da maternidade. Paula Tatiana Inácio Soares, de 27, festeja Júlia. Com a boca da pequena no seio, tem brilho inesquecível no olhar: "Que força ela tem… ó, ó!"

"Essa aí vai ser ‘a’ mãe! É forte demais!", elogia o pintor Wemerson de Almeida, emocionadíssimo. Refere-se à mulher, Arielly Samer, de 19, que, na banheira, sob as lentes do EM, trouxe à luz Pedro Othon, de 40 semanas. "Ficamos seis meses tentando, e quando paramos de tentar, ela engravidou", conta o papai coruja. A mulher retribui: "Ele chorou comigo. Ficou desesperado e queria a dor pra ele", sorri. Ao lado, mais nenéns. Depois de Karla, Kleber, Sarah, Raquel e Mariane, é a vez de Adrian deixar o ventre de Luciana Rodrigues Gonçalves, de 25, e cheia de coragem. No alojamento conjunto, Jaqueline, mãe de Guilherme, ainda se recupera da cesárea. Tem a companhia do marido, fiel parceiro, que muito bem cabe em si de tanto contentamento.

A história de Jaqueline, graduada em letras pela UFMG, é comovente. Ela conta que há 15 anos teve um garoto que morreu, antes de completar um ano, por complicações no pulmão. Ela ficou arrasada e o casamento ruiu. Sozinha, fechou-se para novos relacionamentos e pensou jamais ter condição de voltar a ser mãe.  Ela revela que ali, no silêncio das suas andanças, aos 38 anos, reviu valores e repensou o mundo. "Ganhar um presente assim, faz a gente pensar muito em Deus, no milagre da vida. Tanta gente vive de forma tão material, tão superficial. Procurei ter meu filho aqui por causa dessa filosofia diferenciada, no momento mais capitalista da medicina. Assim como acontece com a educação, a saúde também tem sido um comércio para muita gente", desabafa.

Milagre do nascimento

Foram nove semanas com a bolsa rompida. Em Contagem, a baiana Dayse Deiró Mendes, de 22 anos, com 23 semanas e quatro dias de gestação, ouviu que o melhor seria abortar Davi. Ela disse não e foi encaminhada às pressas para o HSF, onde, guerreira, amparada pela Casa de Sofias – anexo auxiliar mantido pela maternidade –, segurou o rebento por 63 dias, até que ele estivesse pronto para nascer. No último dia 4, o presente, "força do destino", vindo de um susto, mesmo com o uso de dispositivo intra-uterino (DIU). No colo, emocionada, exibe o mocinho, belo e forte, sob os cuidados da equipe da UCI. 

Bem perto de Dayse, a poucos metros, outra dupla valente: mãe e filha, num só carinho. Aline Santana Oliveira, de 21, e Isabela Vitória, nascida com 26 semanas e 620 gramas. "Ela ficou 56 dias na UTI. Eu adoeci e tive de ficar duas semanas em casa, só pensando nela. O resto do tempo fiquei aqui, acreditando que ela ia ficar bem", conta. Aline não desgruda de Vitória. Mimo para afastar o terror vivido em 8 de março, quando, em dois hospitais da região metropolitana - em Matozinhos e em Pedro Leopoldo -, ouviu que se insistisse na bebê correria sérios riscos de morrer. Prevaleceu Vitória.

Mimo e euforia

As mamães escutam a enfermeira obstetra Kelly Borgonove. É a reunião da tarde. Na sala, envoltos pelo aconchego das mantas e dos colos, 14 recém-nascidos. Nas mulheres, o cansaço e alegria se confundem. Não é para menos. Todas trouxeram as crianças ao mundo nas últimas 24 horas. Em pauta, cuidados. Fala-se em planejamento familiar – ali, não é tão raro, moças pobres, de vinte e poucos anos, já costumam ter meia dúzia de filhos.

Entretida, Morgana Sueli de Oliveira, de 21, segura cheia de mimo o pequeno Adriano, de 44cm e 16 horas, nascido com 36 semanas de gestação. Ela se destaca entre as outras mães pelo sorriso aberto que bem lhe cabe na boca. Sentada, faz dançar o tronco para embalar o tão querido Adriano. Forte, não parece ter enfrentado 15 horas de trabalho para o parto natural. "Nem soro tomei. Foi muito difícil colocá-lo pra fora… agora, tô feliz demais!".

No dia seguinte, pela manhã, o EM encontrou Mário Lúcio Rodrigues, de 29, pai do garoto, no café da manhã. O operador de retroescavadeira, vaidoso, barba desenhada à mão, fez questão de exibir o vídeo de 10 minutos feito por ele na hora do nascimento. "Bonitão demais, né não!? Olha só!" O filme, amador, é cheio de closes no saco roxo do menino. "Tem um monte de foto também! Quer ver?". Figuraça!


 
Arielly e Pedro Othon

 Leide e Daniel

 Madalena e Ismael

Poliana e Yuri

Tatiana e Julia

Adriana e André

Aline e Vitória

 Andrea e Aline

Ariane e Gabriele

Camila e Renan

 Dayse e Davi

 Janaina e Marcus Vinícius

Jaqueline e Guilherme

 Jessica e Tawanny

Jussara e Isadora

Kênia e Thiago

 Luciana e Adrian

Morgana e Adriano

 Natane e Luiz Otávio

 
Rosemary e Maria Eduarda


A HORA DA ALEGRIA
A felicidade das mães em 24 horas ininterruptas (das 14h do dia 8 às 14h do dia 9) na maternidade

15h
Leide Francisco Oliveira, de 31 
Daniel Gusmão Oliveira,
38 semanas
50cm; 3,095kg
Bairro Padre Eustáquio – BH

15h57
Andrea dos Santos, de 33
Aline dos Santos de Araújo,
40 semanas
50cm; 3,2kg
Bairro São Gabriel – BH

18h37
Poliana Inácia Félix, de 21
Yuri Félix Perussi,
41 semanas
49cm; 3,815kg
Ribeirão das Neves – Grande BH

19h24
Janaína Rodrigues Oliveira, de 23
Marcus Vinícius Rodrigues de Castro, 40 semanas
49 cm; 3,785kg
Conceição do Mato Dentro – MG

20h04
Rosemary Barbosa, de 33
Maria Eduarda Soares Paixão, 40 semanas
44cm; 2,855Kkg
Bairro Tupi – BH

21h29
Eunice Ferreira da Silva, de 35
Vitória Ferreira de Oliveira,
33 semanas
40cm; 1,915kg
Dores do Indaiá – MG

22h50
Camila Duelis Martins, de 20
Renan Duelis Martins Alves,
41 semanas
47cm; 3,550kg
Bairro Havai – BH

22h50
Adriana Santana Oliveira, de 28
André Santana Rosa,
41 semanas
54cm; 4,295kg
Ribeirão das Neves – MG

23h17
Natane Ribeiro de Assis, de 17
Luiz Otávio Ribeiro de Oliveira, 41 semanas
49cm; 3.550kg
Brumadinho – Grande BHMG

3h08
Jaqueline de Souza Lopes, de 38
Guilherme de Moraes Torres Lopes, 41 semanas
47cm; 3,860k
Vespasiano – MG

4h25
Jussara dos Anjos Faria, de 29
Isadora Faria de Freitas,
39 semanas
47cm; 3,330k
Bairro Tupi – BH

5h43
Madalena Bonjardim da Silva, de 32
Ismael Costa Silva
48cm; 3,090kg
Bairro Maria Goreti – BH

5h58
Paula Tatiana Inácio Soares, de 27
Júlia Inácio da Silva,
40 semanas
48cm; 3,535kg
Sabará – Grande BH

7h16
Any Ferreira Dutra, de 23
Gustavo Lopes Dutra Medeiros,
38 semanas
52cm; 3,990kg
Belo Horizonte

8h47
Ariane Martins Teodoro, de 17
Gabriele Martins Santana,
41 semanas
48cm; 3,595kg
Bairro Belmonte – BH

9h40
Jéssica Teixeira do Carmo, de 20
Thawanny Teixeira Fernandes,
40 semanas
47cm; 2,855kg
Bairro Nova York – BH

10h57 e 11h30
Claudia Pereira de Jesus, de 39
Warley: 41cm; 2,320k
Wesley: 43cm; 2,115kg
Vespasiano – Grande BH

12h30
Luciana Rodrigues Gonçalves, de 25
Adrian Matheus Vieira Gonçalves,
39 semanas
48cm; 3,765kg
Ribeirão das Neves – Grande BH

12h46
Arielly Samer Moreira, de 19
Pedro Othon Moreira Batista,
40 semanas
50cm; 3,490kg
Bairro São Gabriel – BH

13h11
Kênia Gonçalves Maciel, de 30
Thiago Henrique G. Martins,
39 semanas
50cm; 3,760kg
Bairro Santa Mônica – BH



Envolvente e emocionante

Por Juliana Flister

Acredito que estas sejam as palavras certas para descrever as 24 horas que passei na maternidade Sofia Feldman. 

Pelo fato de estar grávida, quando me chamaram para fotografar as mulheres que se tornariam mães, encarei o trabalho como um desafio. Afinal, assistir um parto normal antes do seu proprio parto não é tarefa fácil. Os gritos de dor vem de diversas salas ao mesmo tempo e assustam. O coração começa a bater mais forte, o primeiro pensamento é: "vou sair daqui". Segundos depois, você escuta: "vem meu filho, a mamãe tá te esperando. Vem logo. Eu te amo". Aí, não tem jeito. As minhas pernas ficaram paralisadas, sentei e chorei com o primeiro chorinho do bebê. Ali, naquele instante, você entende que a dor do parto é uma coisa linda, e isso dá coragem e vontade de ver tudo aquilo com os próprios olhos.

Com a autorizacão de algumas mulheres, entrei em duas salas e registrei, da forma mais respeitosa, aquele momento pessoal, único e corajoso. Usei da minha observação mais aguçada para construir imagens comoventes, carregadas de muita força, amor e emoção. Naquela fração de segundo, onde eu não podia perder o momento do clique, minhas pernas bambearam, mas me mantive firme. 

Ali, em meio a tanto sentimento, eu entendi os vários significados da palavra mãe.





Estado de Minas - Caderno Gerais - 13/5/12

Um comentário:

Anônimo disse...

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