Fantástico - Vai fazer o quê?

segunda-feira, 21 de março de 2011

Frango ao molho pardo

Não se falava noutra coisa. Era conversa de igreja, quartel e padaria. Só na casa do Edgar (75) é que o assunto morria calado. Não era para menos. O velho não merecia o desgosto. Coronel Edgar, reformado e viúvo, homem de regra e ordem, passou a vida a lutar contra desvio de conduta de qualquer razão. Linha duríssima, fez de tudo, em casa e no trabalho, para compartilhar caráter. Melhor para os dois filhos, Jonas (46) e Ricardo (44), crescidos sob o olhar e a bênção da honradez. Mas nem tudo se ensina nessa vida e o militar, hoje em cadeira de rodas – vítima de doença rara –, estava bem perto de sentir na pele o peso da verdade.

Sábado acinzentado. Na casa 6, da Rua 29, hora de almoço a três. Noras e netos estavam para outras bandas, em shopping qualquer. Como de costume, sábado sim, sábado não, era dia dos filhos visitarem o coronel. Na mesa farta, frango ao molho pardo. Ricardo, capitão de polícia, há tempos andava por demais reservado. Enquanto Jonas, advogadozinho de carreira em orgão público, mulherengo e farrista, cada vez mais satisfeito com a vidinha para trás. O capitão nem esperou pelos pratos vazios para desembargar a garganta: “Amanhã, Aninha, minha filha mais velha, completa 21 anos. Tem 47 dias que eu penso no dia de hoje. Pensei que, talvez, pudesse arranjar alguém pra resolver esse problema… mas pensei melhor e entendi que seria covardia da minha parte delegar isso pra outra pessoa”.

O pai e o irmão estacionaram os garfos, confusos com o capitão. Ricardo encarou o velho como quem pede permissão para agir. Sem pressa ou desespero, sacou o revólver e disparou contra o peito de Jonas. Na mesa, diante do coronel, o capitão depositou exame de DNA. No documento, a confirmação da traição do primogênito com a nora, mãe de Aninha: o advogado morto era o verdadeiro pai da moça. Estava ali, escrito, feito e refeito. Coronel Edgar, com a prova entre os dedos, quis ouvir o caçula:

– E a mãe da minha neta?

– Confessou. Disse que tiveram um caso.

– Isso não se faz.

– Matar um irmão?

– Desonrar uma família.

Em silêncio, o coronel e o capitão esperaram pela polícia. Juntos, voltaram aos pratos para, ao menos, não deixar sobrar o frango ao molho pardo.


Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 21/3/11

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