Vincent - Um solo de amor

terça-feira, 8 de março de 2011

O dia seguinte

O sábado de Carnaval foi uma beleza. O Ananias, recém-separado, deitou e rolou em bailão de marchinhas na Pampulha. Começou a beber no ajuntamento dos ponteiros, ao meio-dia. Perdeu-se rápido da turma de colegas do trabalho. Pensava apenas em afogar as mágoas, já que, bastante contrariado, havia assinado o divórcio naquela semana. Na vara da família, rever a ex, Conceição, felicíssima, irreconhecível, cheia de plásticas às suas custas, foi golpe duro no vendedor de automóveis. Passado. Agora, Ananias, enxutão aos 45, queria mais era correr atrás do tempo perdido. Afinal, tipo raro, só pulou a cerca duas ou três vezes durante os quase 20 anos de casamento. E o filhão, André, já estava encaminhado, na Escola de Engenharia. Hora de curtir a vida. No clube, com dezena de quarentonas para cada macho, desesperadas, pelas paredes, o Ananias se jogou na multidão. Voltou a ser garoto. Quando entrou a noite, não sabia com quantas havia ficado. Bonita ou feia, não importava. O Ananias queria era beijar e ser beijado.

O duro foi acordar domingo sem se lembrar de nada. Primeiro, despertou por dentro, sem abrir os olhos, que, pesados, não davam conta do menor movimento. O corpo, doído, parecia chicoteado. A cabeça girava pesada. Pensou apenas, catando na parede da memória a última cena passada. Flashes de sarros e amassos o aturdiam. Lembranças vagas de esfregas com loiras, morenas, gordinhas e magrelas. Sorriu baixinho, cheio de si: “Sou o cara!” Virou-se com jeito, devagar, para o outro lado da cama e venceu as pálpebras. Ao seu lado, nua, uma loiraça dormia abraçada a uma garrafa de vodka. Tinha o rosto coberto pelas longas madeixas oxigenadas. Ananias não se lembrou da mulher. Também não reconheceu o quarto acortinado por blackout. Levou a mão até o criado e acendeu pequena luminária. Olhou por debaixo do lençol e, assim como a boazuda descabelada, ele estava sem roupa. No entorno da cama, mesmo à pouca luz, dava para perceber o cenário da farra: toalhas molhadas, sapatos virados e roupas torcidas, espalhadas pelos cantos. Na maçaneta da porta do banheiro, próxima ao abajur, uma calcinha de oncinha chamava a atenção. No ventilador de teto, um sutiã GG e uma cueca amarela, enlaçados, pendurados.

Espiou mais uma vez por debaixo do lençol para ver se reconhecia a mulher do rosto sob os cabelos. Nada. Jamais viu corpão tão caprichado, feito a mão. Os peitões, turbinados, pareciam mais coisa de escola de samba ou reality show. A barriguinha, lipoaspirada, parecia até de artista de televisão. Difícil calcular a idade da mulher: “Deve ter uns 30, 35. Um biju!”, pensou por canalhice ou absoluta falta do que fazer. Esquadrinhando a estranha, pedaço do Ananias ameaçou sinal de vida. Mas, exaurido, voltou às trevas.

O rádio-relógio, sobre o criado do outro lado, disparou alarme estridente. A loira, com dificuldade, desligou o aparelho. Virou, mexeu e espreguiçou-se. Respirou fundo, manhosa, levou a mão nos cabelos para liberar o rosto e abriu os olhos: “Você!?”, gritaram juntos, os dois, no susto. “Meus Deus!”, exclamou a mulher. Já o Ananias não achou de todo ruim reconhecer a mãe de seu filho e suspirou: “Tá gostosona pacas, hein, Conceição?!” ]

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 5/3/11

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