Vincent - Um solo de amor

sábado, 4 de julho de 2009

Uma rua chamada solidão (11)

"Eu sempre acreditei que sexo faz bem pra pele, meu amigo. Madame Lalá é prova viva disso. É ela a madrinha de quase tudo o que é garota de serviço na cidade"




Maria, Claudete e Bigode deixaram a delegacia. O administrador e as duas putas pegaram carona no camburão e voltaram ao batente na Rua Guaicurus. Carvalini, o policial, não conseguia deixar de pensar em Maria, mulher das mais lindas em lugar de pouca sorte. O detetive Leomar farejou o clima:


– Um pitel a mais nova, não?
– Mais ou menos.
– Pare com isso, Carvalini. Até o delegado percebeu que ela balançou você.
– Ele disse isso?
– Nem precisava. Só liberou os três por sua causa.
– São inocentes.
– E o Bueiros lá liga pra isso? Já deixou dormir na jaula muita puta de bem.
– Há algo nessa Maria que me intriga.
– Linda demais pra fazer vida, né!?
– Não é só isso. Há algo mais nessa mulher.
– Paga pra conferir, parceiro.


João, em busca de Maria, seguia na companhia do taxista para a casa de Madame Lalá. O motorista, figuraça, estacionou na porta do casarão azul e sorriu descolado:

– Vais conhecer agora a eterna e primeira dama de Belo Horizonte. Tudo quanto é político famoso que você pode imaginar, já passou pelo colo dessa mulher. Hoje, pendurou a calcinha. Também, cá entre nós, dizem que tem mais de 80. Impressionante. Está mais enxuta que muita coroa de 50. Eu sempre acreditei que sexo faz bem pra pele, meu amigo. Madame Lalá é prova viva disso. É ela a madrinha de quase tudo o que é garota de serviço na cidade. Se ela não conhecer a sua Maria, ninguém mais conhece. A corrida você paga aqui. R$ 19,50. A minha companhia vai de brinde. Gostei de você. Além do mais, estou precisando dar um abraço na Madame.


Desceram do carro e, juntos, ganharam o sobrado discretíssimo em bairro elegante.

Dorinha, no JK, encerrou feliz o repertório para o show do dia seguinte. Cantou bonito as canções listadas para Raul, o schnauzer de estimação. Pensando em João, a artista da noite começou a preparar jantarzinho para receber o hóspede capixaba. Já era fim de tarde quando ela cortou a praça para comprar garrafa de vinho.


Enquanto isso, na rua da solidão, Maria, de portas fechadas, por mais um dia não abriu as pernas para ninguém. Já Claudete, por R$ 15, se acabava embaixo de autista gigante.


(Continua no próximo sábado)
Jefferson da Fonseca Coutinho - Vida Bandida - 4 de julho de 2009

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