Vincent - Um solo de amor

sábado, 18 de julho de 2009

Uma rua chamada solidão (13)

"Na ocasião, Dorinha soube que eles já estavam de caso há tempos. Traída e largada, sofreu horrores e decidiu enterrar o assunto. Cicatriz tocada, aquele telefonema reacendeu a dor"




No JK, Dorinha se perfumou para esperar João. No celular, chamada besta para estragar a noite: "Alô…". Do outro lado da linha, descompensado, o ex-namorado queria explicações:


– Soube que você já colocou outro homem dentro de casa. Vagabunda!
– Não tenho satisfações a lhe dar.
– Como não? Metade do que tem nesse muquifo quem comprou fui eu.
– Com o meu dinheiro.
– Não interessa. Não montei cama para mulher minha se deitar com vagabundo qualquer.
– Não sou mais sua mulher.


A cantora desligou o telefone. Não perdeu tempo para explicar que não era exatamente o que o sujeito estava pensando. Afinal, há três meses, foi o canalha quem chutou o pau da barraca e foi morar com muambeira em Vespasiano. Na ocasião, Dorinha soube que eles já estavam de caso há tempos. Traída e largada, sofreu horrores e decidiu enterrar o assunto. Cicatriz tocada, aquele telefonema reacendeu a dor. Emudecida diante do espelho, reviu os dias de má-companhia. Raul, o schnauzer, assistia a tudo sob a mesa. Na geladeira, vinhozinho em balde de aço. No forno, o jantar de bom gosto à espera de chamas.


Madame Lalá desceu com elegância a escadaria do casarão do bairro chique da Zona Oeste. João e Lilico, o taxista, a aguardavam na sala colorida que dava para o jardim em flor. As beldades, espalhadas pelo ambiente colorido, faziam charme e cochichavam serelepes. A velha, enxutíssima, sorriu para o gigolô do volante: "Ora, ora, sim, senhor! Que faz por estas bandas o Don Juan de araque?". Lilico respondeu moleque: "Buscar inspiração com quem sabe das coisas, minha rainha". Trocaram abraço de afeto e cumplicidade. João não quis perder tempo e entrou direto no assunto:


– Procuro uma mulher, minha senhora. O nome dela é Maria.
– Aqui todas são marias, meu bem.
– Ela é mineira, mas veio do Rio de Janeiro. Trabalhava em Copacabana. Tem 25 anos e chegou em Belo Horizonte faz poucos dias.
– É mulher de rua?
– Como assim?
– É dama de calçada ou atende em local fixo?


João não precisou saber dizer ao certo. Madame Lalá cantou a pedra: "Guaicurus. A Maria que você procura está na Rua Guaicurus".


(Continua no próximo sábado)


Jefferson da Fonseca Coutinho - Vida Bandida - 18 de julho de 2009

2 comentários:

kenia mara disse...

Jeferson parabens pelo seu excelente trabalho,adoro suas cronicas e ate confesso que sou viciada nelas.Estou anciosa e curiosa pelo fim de "uma rua chamada solidão"falta muito para terminar essa cronica?Por favor me responda.

Anônimo disse...

Olá Kenia!
Obrigado pelo carinho. A crônica está virando novela, né!? rs
Quando penso em terminar a história, novas personagens me assombram os sonhos... vamos ver aonde isso vai dar...
Meu abraço, Jeff