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segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O triunfo da palavra

"Maria Stuart" ofereceu à plateia o belo e denso texto de Schiller, traduzido por Manuel Bandeira. Júlia Lemmertz e Lígia Cortez foram aplaudidas de pé



Jefferson da Fonseca Coutinho

Longe do modismo dos stand-ups; das comédias ligeiras que invadem de norte a sul do Brasil e das invencionices de cabeças flutuantes que pregam a reinvenção da roda, Maria Stuart trouxe ao Palácio das Artes, no fim de semana, teatro como há muito não se vê na cidade. O texto do historiador, poeta e dramaturgo alemão Friedrich von Schiller (1759-1805), traduzido por Manuel Bandeira, teve tratamento respeitoso nas mãos do diretor Antônio Gilberto. Os cinco atos originais sofreram apenas pequenos cortes, adaptados para dois períodos com intervalo de 15 minutos. Como nos velhos tempos, o público foi brindado com mais de três horas de boa palavra.


Há muito não são comuns espetáculos com tamanha duração. É absolutamente compreensível qualquer cansaço e esforço do público para se manter atento à trama. Em Maria Stuart, sexo, poder, ambição e rivalidade entre duas rainhas alinhavam a liberdade moral e o idealismo kantiano de Schiller. Tudo isso transposto da linguagem culta alemã para o português erudito. De fato, não é programa para quem gosta de Big brother ou de Pânico na TV.


Os novos tempos, emburrecedores, é verdade, nos fazem enferrujar o cerebelo. Se de um lado da quarta parede há certo estranhamento ou desconforto na plateia, do outro, no palco, não é muito diferente para o elenco – que, vez por outra, perde naturalidade por descompasso entre verbo e intenção. Por efeito da carência real da realização de grandes clássicos no Brasil, há, ainda, o lamentável equívoco que cometem alguns intérpretes, que vão ao cadafalso por excesso da ação física e da voz. A medida justa é objeto de trabalho constante do ator. No palco, não dá para falar baixo demais ou apenas menear os olhos. No sábado de estreia em BH, certamente, quem estava mais ao fundo teve dificuldades em ouvir parte do texto.


Nem as protagonistas Júlia Lemmertz e Lígia Cortez deixam de cometer excessos em Maria Stuart. No entanto, boas atrizes, elas são responsáveis por momentos extraordinários sob a luz. Júlia, a rainha escocesa Maria, legítima e encarcerada, seduz pela beleza, impulso e destempero. Lígia, no papel de Elizabeth I, a filha bastarda do rei Henrique VIII com a polêmica Ana Bolena, se impõe com pulso firme e obstinação. Juntas, em sequência silenciosa e marcação limpa, compõem o belo quadro de encerramento da peça.


A direção, notadamente, procurou privilegiar o texto de Schiller. Desenhou movimentação simples, quase monótona, para o cenário funcional de Helio Eichbauer. Obteve com Tomás Ribas iluminação bastante adequada à montagem. Já os figurinos, de Marcelo Pies, beiram o óbvio na busca por atemporalidade. Com destaque para o belo vestido branco de Maria Stuart na última cena.


Ao final, casa lotada, a plateia aplaudiu de pé, provando que, resistente, o bom teatro da palavra ainda não perdeu sua vocação em terras mineiras.




Fotografia: Nana Moraes e Rubens Cerqueira


(Crítica publicada no jornal Estado de Minas)

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