Vincent - Um solo de amor

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Descanse em paz, cabo Silva

"Muito triste a violência que assombra os cidadãos. Nem o homem da lei, preparado para as situações de risco, está imune à brutalidade que mata".





A morte do cabo Marcos Antônio da Silva, de 43 anos, ao reagir a um assalto no Bairro Nova Suissa, em Belo Horizonte, foi assunto ontem entre amigos da praça. O PM foi baleado na noite de segunda-feira, quando chegava em casa, na Rua Veneza. Muito triste a violência que assombra os cidadãos. Nem o homem da lei, preparado para as situações de risco, está imune à brutalidade que mata. Ano passado perdemos dois amigos assassinados na porta do lar. Um deles foi morto com as mãos para cima, depois de ter entregue as chaves do automóvel. O outro, praticante de arte marcial, reagiu, desarmou o assaltante, mas foi morto pelas costas por comparsa que estava escondido. Uma tragédia que, infelizmente, a família tão cedo não vai superar.


Nós que rodamos à noite temos que redobrar a atenção. “Reagir jamais”, é o que prega o Adelson sempre que tem oportunidade. E ele pode afirmar com a voz de quem quase morreu duas vezes nas mãos de gente que não presta. Numa delas, em 2002, o bandido chegou a puxar o gatilho. Por sorte, ou pela mão de Deus (quem sabe), a arma falhou. Da outra, em 2006, a bala passou de raspão, no pescoço. Na ocasião, o Adelson arrancou e o marginal fez vários disparos em direção ao táxi. O Oswaldo também já passou por maus bocados preso num porta-malas por quase cinco horas. O Genilson, filho do Everaldo, tomou pancada na cabeça e levou 19 pontos no rosto. Ficou marcado para sempre. Nunca mais quis saber de rodar à noite.


Ontem, por menos de hora, foram muitos os casos relembrados durante a pausa para o jantar no Bairro Padre Eustáquio. O Samir, filho de sargento da PM, estava indignado com a morte do cabo. “Conheço vários policiais. O pai e muitos dos seus companheiros dão a vida pelas pessoas. Um homem da lei, do bem, não pode morrer assim tão desgraçadamente, sem chance de se defender. Ninguém pode morrer assim. Mas, na polícia, para mim, isso é morrer duas vezes”, desabafou, tomando as dores do pai, que está aborrecidíssimo com a morte do colega de corporação.


Deixamos a mesa com comida nos pratos. Assunto indigesto, ninguém deu conta de comer em paz. Cada um assumiu o volante de seu ganha-pão e seguiu jornada. Fiz sete corridas magras madrugada adentro. Na fila da rodoviária, entre um avanço e outro, tomei nota de alguns pensamentos para a Bandeira Dois de hoje. No som, música suave para relembrar o amor dos filhos e da bela Violeta, sentimento-razão para agradecer pela vida e querer se manter de pé por longo período ainda. Antes de voltar para casa, um beijo na mulher amada e telefonema fixo para o Espírito Santo, para ouvir a fala rouca do velho Botelho, homem do mar e das gaivotas. Um alô carinhoso para os filhotes e a cabeça no travesseiro com cheiro de rosa. Pensamentos mil, respiração profunda para aliviar o peso dos efeitos da violência e alcançar sono de descanso.


Na caderneta, uma última nota: “Descanse em paz, cabo Silva”.


(Bandeira Dois - Josiel Botelho - 19 de agosto de 2009)

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