Fantástico - Vai fazer o quê?

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O voo sem asa de Alvisi

Com atuação apaixonada e convincente, Luana Piovani sustenta montagem com direção frágil e concepção dramática superficial





Jefferson da Fonseca Coutinho

Há dois espetáculos em Pássaro da noite, que, no fim de semana, passou rasante por Belo Horizonte e Nova Lima. O primeiro, o da palavra confusa, desacertada, por vezes, em rima barata e prosa vazia. Infeliz viagem de José Antônio de Souza, autor, entre outros, do belo romance Paixões alegres e do genial texto teatral Crimes delicados. O segundo, que valeu os 60 minutos da noite de sexta-feira, no Teatro Alterosa, é o da intérprete visceral, inteira, entregue de corpo e alma à criação. Verdadeira, justa, na soma do que havia de melhor e de pior na montagem carioca. Grata surpresa ver a atuação de Luana Piovani em trabalho solo.

No palco, a solidão é uma escola. Luana parece saber a lição. Longe dos devaneios do que está na superfície, a atriz passeia com propriedade por rica variedade de nuanças e transições; valoriza com vigor pausas e subtextos; faz drama e brinca com o ridículo, com o chulo. Até se faz feia com meia dúzia de caretas a serviço de sua personagem passarinha, depenada, em frangalhos. Trabalha o corpo com evidente domínio e consciência. Compõe tipos coadjuvantes eficientes e tem o dom da naturalidade. No entanto, o que sobra na entrega da atriz, lamentavelmente, falta ao roteiro e à encenação.

A direção de Marcus Alvisi, no que se refere ao desenho da cena, é primária. Há que se considerar, sem dúvida, a sua boa condução no desempenho da atriz. O diretor está lá, percebe-se, na respiração, na ação interna de Luana. Porém, suas marcações no tablado são comuns aos trabalhos de iniciação das escolas de teatro, que buscam o exercício do melhor aproveitamento e uso do espaço (ora direita, ora esquerda, ora ao fundo, ora à frente). Diminui-se também, previsível, o vazio do palco pela ausência de cenário. Conceito, certamente, já que se trata de produção requintada. Só que o preenchimento da caixa cênica com o uso excessivo da máquina de fumaça e mudanças de luz chega a incomodar. Não surpreenderia absolutamente que um banquinho e Luana, apenas, já salvassem o espetáculo.

Em Pássaro da noite, pelo todo, a direção errou a mão. Homem de teatro responsável por trabalhos importantes da cena nacional, como Hamlet e Othelo, de Shakespeare, além de Diário de um louco, de Gogol (todos com Diogo Vilela), Marcus Alvisi, que também é ator experiente, decepciona ao retroceder léguas, num vôo sem asas. Infelizmente, perde-se no argumento movediço, no conteúdo pretensioso, na falta de rumo da personagem escrita pelo mineiro de Januária. Contudo, esse Pássaro da noite não deixa de contribuir para que Luana Piovani alcance o lugar que vem merecendo junto às grandes atrizes do teatro brasileiro.


(Crítica publicada no jornal Estado de Minas)

Um comentário:

R* Alves disse...

Não sou muito técnico nas palavras e conhecimento, mas amante do teatro e da Luana
( www.venusplatinada.blogspot.com), realmente como um simples leigo leio e assino em baixo sua crítica, realmente a Luana se sobressai...mas em relação as marcações e luzes e fumaças, estou rindo aqui, pois tambem concordo em genero, numero e grau sobre.

Obrigado pela crítica em relação a Luana, com certeza ela ficará muito feliz em ler. Acho que foi em relação até a SUA crítica que ela postou no site dela dia 11/08 ( www.luanapiovani.com.br).

Um abraço, Rodrigo