Fantástico - Vai fazer o quê?

sábado, 15 de agosto de 2009

Uma rua chamada solidão (17)

"Tuca deixou o barracão cor-de-rosa sem rumo. Naquela madrugada, depois de surrar a amante de vida fácil, assumiu o volante do importado roubado e desapareceu às margens da Lagoa da Pampulha"




No Bairro Nacional, esconderijo de Sininha, a revelação de que Tuca não havia esfaqueado fulana provocou reviravolta no caso da puta assassinada na Rua Guaicurus. Aturdido, o bandido não teve coragem de disparar a arma apontada para a mulher. Sem saber o que fazer para recuperar o dinheiro e as jóias levantados no último assalto, na companhia do comparsa Leleco, Tuca deixou o barracão cor-de-rosa sem rumo. Naquela madrugada, depois de surrar a amante de vida fácil, assumiu o volante do importado roubado e desapareceu às margens da Lagoa da Pampulha.


No JK, João e Dorinha nem perceberam o chegar da manhã. Viraram a noite apenas em conversa amiga, sem segundas intenções. Dorinha, feliz como há muito não se via, foi quem acordou para a hora:


– Meu Deus! Nem vi amanhecer. Acho que a gente precisar dormir, né!?
– É. O tempo passou num galope. Obrigado pelo jantar, Dorinha.
– Não há o que agradecer. Olha só... hoje à noite vou cantar na praça de alimentação do Shopping Cidade. Fica no Centro. Eu ia ficar muito contente se você aparecesse por lá.


João disse que ia fazer de tudo para prestigiar a nova amiga. Sabia que o dia seria longo na volta à rua da solidão em busca de Maria. Ajeitou-se no sofá macio e dormiu sono profundo, enquanto Dorinha, sob lençol perfumado, sentia-se cada vez mais envolvida pelo jovem capixaba evangélico.


Maria, Claudete e o pequeno Julim acordaram cedo no Bairro São Gabriel. Manhã de ação para as duas putas que queriam recuperar o tempo perdido dos últimos dias. Chegaram antes das 8h no hotel de indecências. O Bigode havia acabado de passar café. Foi ele quem deu a notícia do velório da fulana: "Vai ser no Cemitério da Saudade, às 11h. Uma tia da fulana avisou para a Jezebel. Ela passou aqui e pediu para mobilizar todo mundo para ir lá se despedir da coitada". Maria disse que precisava trabalhar e que, como não conheceu a morta, não se sentia à vontade para participar da cerimônia. Já Claudete, além de garantir presença, se encarregou de ligar para uma dezena de conhecidas para fazer o comunicado.


Depois da tia, o detetive Carvalini foi o primeiro a chegar no local. Passou pelo caixão barato recheado de flores brancas e cumprimentou a parente da morta, sentada num canto do cômodo. Puxou assunto com a curiosidade profissional de quem queria desvendar o caso. Da doninha de cabeça prateada arrancou depoimento importante: "Na semana passada ela foi até a minha casa e falou que tava gostando muito de um moço de vida errada. Mas disse que tinha um outro no trabalho que não deixava ela em paz".



(Continua no próximo sábado)


Jefferson da Fonseca Coutinho - Vida Bandida - 15 de agosto de 2009

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