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sábado, 10 de abril de 2010

As sombrinhas de Deus

Pedro passou a madrugada com os pensamentos acesos, agarrados às sombrinhas de Deus: “Sombrinhas de Deus? – estranhou – Coisa mais esquisita... Mas Deus bem que podia mandar um guarda-chuva para que ninguém morresse por causa da chuva”, concluiu, pensante, em sono dos mais profundos, logo depois de assistir ao noticiário do jornal das 22h. O garoto Pedro, pequenino ainda, com sete anos de vida, estava bastante impressionado com todas aquelas imagens e depoimentos de gente sofrida, em apuros, no Rio de Janeiro.

Durante o telejornal, ele estava só na sala do barracão no Alto São Lucas. O pai, Altair, vigia noturno, batalhava pelo pão em prédio comercial do Bairro Funcionários, não muito longe dali. Chiquinho e Maria Alice, os dois irmãos menores, em fraldas, dormiam na cama da mãe. Lucimara, grávida de seis meses, com inchaço e fortes dores nas pernas, deitada, do quarto chamou: “Desliga essa televisão e vai dormir, minino!” Sem piscar ou desgrudar os olhos da tela, comprada pelo Altair em 36 prestações no Natal passado, o rapazinho respondeu: “Só mais um pouquinho, mãe”.

Nada naquele aparelho grande, com mais de 20 polegadas, o havia chamado tanto a atenção. Ali, via desenho, filme, futebol, propaganda e novela. Telejornal também. Sempre achou os homens de gravata muito elegantes e as mulheres de dentes brancos muito lindas. Até brincava, dizendo-se namorado de todas elas. Especialmente das bonitonas que falavam sobre o tempo, sempre com carinhas de princesas. Mas nunca foi de dar ouvidos ao que elas diziam. Gostava de ver, somente. Naquela noite, foi diferente. Entristeceu-se sem saber o motivo ou a razão.

A mãe não precisou mandar duas vezes e ele, obediente, no boa-noite da mulher peituda, desligou a TV. Antes de deitar-se ainda foi à janela que dava para a cidade. De lá, na ponta dos pés, podia avistar o prédio de vidro, onde o pai trabalhava. “Será que vai chover?”, pensou preocupado. Olhou para o céu escuro, carregado, e juntou as pequenas mãos numa prece: “Sai pra lá chuva! Amém”, e fez o Nome-do-Pai meio atrapalhado – já que, no final do sinal da cruz, nunca sabia se beijava os dedos.

Ajeitou-se no sofá sob o cobertozinho surrado e deu ao corpo miúdo descanso. Foi, então, que imaginou as tais sombrinhas de Deus. Em cores, sonhou todas as pessoas protegidas por guarda-chuvas mágicos. Deus sorria, com seus grandes olhos coloridos espalhados pelo mundo. Pedro, alegre, voava rasante, com suas asas de anjo, até ser acordado pelo chamado da mãe, assustada com a forte tempestade que o céu despejava. Esperto, o garoto correu num canto do banheiro e passou a mão na velha sombrinha azul, remendada. Com ela aberta sobre a família, dentro de casa, ele esperou pelo pai.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 10/4/10
Arte: Juha Vasku

2 comentários:

Walmir disse...

a dor e o desamparo merecem mesmo umas poesias, mano.
paz e bom humor, sempre.

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