Vincent - Um solo de amor

sábado, 17 de abril de 2010

Má companhia

Valdir aceitou por desespero. Já Ronilson propôs porque era bandido: “É só ficá com a moto ligada que eu faço o serviço. Num tá precisado!? Então!”. Foi numa partida de sinuca, no bar do “seu” Nico, que a conversa ganhou volume. Valdir estava no sufoco por causa das prestações atrasadas da moto que comprou para tentar a vida. Ronilson já estava na bandidagem, vivendo de roubo e pilantragem. Vizinhos desde a infância, cresceram e guardaram amizade. Valdir, filho de mãe solteira, doméstica, só pensava em acertar o rumo. O outro, Ronilson, vivia espancado pelo pai, que um dia, pipocado no peito, foi encontrado morto na mata baixa do morro. Obra do Ronilson, todo mundo sabia. Menos o Valdir, que preferia não acreditar que o amigo seria capaz de matar.

Embora diferentes, os dois rapazes tinham muito em comum: idade, gosto por música, futebol e mulher. Ajudaram-se muitas vezes em tudo o que já tinha sido problema. Meninices que costumavam relembrar crescidos, hoje, aos 27. Havia o que não querer relembrar também. Certa vez, apaixonaram-se pela mesma moça: Fátima. Uma morena linda que veio de Divinópolis. Ela gostava do Valdir, mas foi o Ronilson quem a ganhou no cansaço. Por consideração, Valdir abafou a paixão. O romance entre Fatinha e Ronilson foi trágico. Ele a engravidou e, três meses depois, numa briga de pescoções, fez com que ela perdesse a criança. Fatinha e a mãe, por desgosto, deixaram Belo Horizonte para nunca mais. Na ocasião, Valdir estava em Juiz de Fora, trabalhando como auxiliar do tio Arlindo, pedreiro, homem evangélico, bom e decente.

Quando soube do ocorrido, Valdir fez de tudo para saber notícias de Fatinha. Viajou para Divinópolis e nada. Encontrou apenas um primo distante: “Acho que foram pra São Paulo”, disse o parente, em tom de desconversa. Valdir voltou para a Zona da Mata e trabalhou por mais três meses. O tio, paternal, dizia: “Só o trabalho dá jeito nas coisas, meu filho!” Com o amigo bandido, nenhum contato. O reencontro dos dois foi no Natal. Ronilson foi até a casa de Valdir cheio de boa intenção: “Sumiu. Virou play, véi? Aqui, presente procê”. Na embalagem improvisada, um relógio roubado. Abraçaram-se e retomaram a amizade. No mês seguinte, Valdir financiou a moto em nome do tio juiz-forano. “Vê lá, rapaz. Juízo!”, disse Arlindo ao assinar o contrato. “Deus te abençoe”, abraçou o sobrinho. Um ano passado, com três prestações vencidas, Valdir perigava ter a motoca tomada por oficial de Justiça. Daí o “serviço” acertado com o Ronilson na sinuca. Ele, de piloto, o comparsa de ferro na mão.

Foi na “saidinha do banco”, em manhã de calma na Avenida do Contorno. Valdir do outro lado da via, enquanto Ronilson observava um homem alto, de cinquenta e poucos anos, que acabara de sacar no caixa eletrônico. O que se seguiu foi muito rápido, fração de minuto. Mal colocou os pés na calçada, o cidadão foi tomado de assalto. Reagiu no susto, por instinto. Tiros. “Não!”, gritou o Valdir, de cima da moto. Desesperado, largou-a no chão e correu em direção à vítima, que agonizava. Ronilson, sem entender, cortou a avenida a pé e sumiu quarteirão adentro. Valdir ainda arrancou fora o capacete para tentar, em vão, socorrer o tio. Arlindo, o pedreiro, veio de Juiz de Fora só para atender apelo da irmã, no sufoco com o filho endividado.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 17/4/10

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