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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Sobre ratos e homens

Denso, difícil, crítico e acertado. Hamelin é mensageiro, exemplo de arte necessária, sem concessões de nenhuma medida, daquelas que buscam engrossar bilheterias. Seja pelo texto, com algo bastante complexo a dizer, seja pela encenação que opta por privilegiar essencialmente o que precisa ser dito. Sem firulas ou embalagem técnica de grandes recursos. Escrito em 2005 pelo espanhol Juan Mayorga, Hamelin aborda duramente a pedofilia, crime ainda mais comum com as facilidades da era digital, frequentemente estampado em manchetes policiais.

O título é livremente inspirado no conto folclórico “O flautista de Hamelin”, no qual um homem é contratado para dar cabo nos ratos que tomavam conta de Hamelin, cidade alemã. Com sua música hipnótica, o sujeito atrai e afoga os pequenos do mal. No entanto, não recebe o dinheiro combinado – uma moeda por cabeça –, já que não apresenta as cabeças dos ratos. Então, para se vingar, toca novamente sua flauta e enfeitiça as crianças do lugar.

A lenda medieval, fonte de inspiração de Mayorga, é apenas pretexto poético para a boa amarração da dramaturgia da peça. O diretor André Paes Leme, seguro e inventivo, faz leitura valiosa do trabalho do autor. Leva o texto à cena sem uso de nenhum truque cênico, explorando ao máximo a capacidade realista de interpretação dos atores reunidos. Criterioso, chega a dar vida às rubricas que diferenciam pausas e silêncios. Espécie de leitura dramática de luxo – com os textos tratados na memória –, Hamelin, cheio de bons motivos, é feliz encontro do intérprete com a palavra.

No drama policial realizado por Paes Leme não há o menor engano ao espectador, sempre lembrado – por meio de distanciamento – que o que está sendo mostrado é a representação de algo de responsabilidade que merece audiência. Longe da quarta parede, narradores-comentaristas conduzem habilmente a plateia às ações, ambientes e intenções literais do drama. Paes Leme consegue, assim, evidenciar em detalhes o entendimento de sua proposta no universo perturbador do jovem juiz protagonista.

Intento de direção dificilmente realizado não fosse o elenco tão competente. Distante léguas do bobo vendido pela televisão, Vladmir Brichta retorna às origens. Bom ator de teatro, revelado em A máquina, de João Falcão – que teve participação memorável na edição de 2000 do FIT BH –, cabe a ele a difícil missão do jovem magistrado. Brichta passeia inteiro pelas nuanças complexas das contradições. Homem de família e da lei, determinado, abatido pela incapacidade de ser justo.

Alexandre Mello, em desdobramento complicado – pedófilo/narrador –, alcança verdade com força interna que vale destaque. Divide o palco de igual para igual com os melhores companheiros de cena, como Oscar Saraiva e Claudia Ventura, eficientes por ritmo e contracena. Alexandre Dantas é outro ponto alto da narração alternada proposta por Paes Leme. Patrícia Simões, não por menos, também tem presença marcante em Hamelin. Demonstra saber lidar com as diferenças entre o que é físico e o que é verbo. Luz, figurino e som são corretos e complementares apenas. Em Hamelin, a melhor roupagem é a responsabilidade social. Mensagem que fica.

(Foto: Silvana Marques)


Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 12/8/10

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