Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 10 de junho de 2013

“Kelly, 19, tipo mulher fruta”

A menina mal sabia se manter em cima do salto arranha-céu, com 18 centímetros. O anúncio dos classificados relax dizia tratar-se de mulher fruta, daquele tipo exagero que alimenta. Mas o que chamou a atenção do velho Cantareira, como sempre, foi o nome Kelly, irlandês, “donzela guerreira”. Assim, como de costume nas noites de segundas-feiras, o viúvo e coronel aposentado, Vicente Cantareira, agendou programa com menina qualquer, de aluguel. Kelly chegou na hora. Pelo interfone, a voz de criança:

- Oi. É a Kelly.

Cantareira destravou o portão e sorriu por nada. A mocinha saiu do elevador tentando mandar bem no salto. Não deu conta. Perdeu o equilíbrio logo na entrada do apartamento e caiu do sapato vermelho nos braços do cabeça prateada.

- Ops... desculpa... é que tá estragado. O sapato.
- Não faz mal.

Cantareira deixa a garota entrar. Kelly é magra, baixinha e está com os peitos enormes, em fuga na blusinha colada. Muito maquiada, usa saia curtinha, em napa colorida. O coronel, discretamente, observa a pequena da cabeça aos pés.

- Olhando daqui de cima até que parece bem novo.
- O que?
- O sapato.
- É novo sim. Mas tá estragado. É a primeira vez que coloco ele, mas tá com defeito. Ate trouxe uma sandalinha na bolsa. Posso tirar o salto?
- Fique à vontade. Você bebe suco de quê? Tenho de uva, pêssego, caju e manga... qual você prefere?
- Gosto mesmo é de cerveja. Mas, hoje, pode ser de uva.

A menina, de havaianas, deixa os sapatos de salto arranha-céu junto à bolsa de oncinha no sofá. Senta-se à mesa e aguarda o velho voltar da cozinha. Tem as mãos tímidas e bem pintadas entre as pernas, como quem quer se aquecer.

- Está aqui o seu suco de uva, Kelly. Também preparei um prato especial para você.
- Jura? Ninguém cozinha pra mim. Na minha casa ninguém sabe cozinhar nada. Nenhuma das minhas irmãs sabe. Elas até cozinham. Mas é muito ruim. O que é isso?
- É um salmão com crosta de ervas e coalhada seca cítrica. Você gosta de peixe?
- De peixe eu gosto, mas desse jeito eu nunca comi não. É chique, hein!? Gosto muito de salmão. É o peixe que eu mais gosto, depois de peruá. O senhor gosta de perua?
- Gosto, Kelly. É bom. Experimenta esse... que tal?
- Que delícia! Não tem gosto de coalhada. Mas é pouquinho assim?
- Posso preparar outro pra você, se quiser.
- Não precisa. Já jantei. Mas é que é pouquinho, né!? Quem tá com fome tem que bater um pratão depois de comer esse tantinho... O senhor está fazendo regime?
- Mais ou menos. Tem dia que eu até como além da conta.

A pausa é longa. O velho vê a menina com olhos de carinho.

- Kelly, qual é a idade do seu bebê?
- Como é que o senhor sabe que eu tenho um filho?
- É porque você está com uma carinha muito bonita... de mãe...
- O senhor se importa?
- Com o quê?
- Com o meu filho... tem homem que não gosta.
- Não me importo. Falo sério. Pode me dizer... como ele se chama?
- Ele é lindo. O nome dele é Roberson. Tá pequeninho ainda... tem dois meses.
- Roberson. Bonito nome. É aquele que sabe muito. Seu filho vai ser muito inteligente. E o seu nome? Qual é?
- O senhor promete que não vai contar pra ninguém?
- Prometo.
- É Aparecida. Na minha casa todo mundo só me chama de Cida.
- Muito bonito. Uma homenagem à Virgem Maria.
- Posso fazer uma foto sua?

Aparecida diz que sim com a cabeça. Cantareira vai até a estante e pega a câmera polaroide. Sentada, Aparecida sorri para a fotografia. O velho saca a carteira e paga o combinado pelo programa.

- Aqui está o que combinamos.
- Mas a gente ainda não fez...
- Não precisa, Aparecida. É pela foto e pela sua companhia.

Cantareira se levanta vai até o sofá. Pega a bolsa e os sapatos da menina. Aparecida guarda as sandálias e volta a assumir o papel de Kelly, a mulher fruta, do peito agigantado pela maternidade. Ele guarda a foto em seu mural de amizades.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

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