Vincent - Um solo de amor

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A lição do guerreiro bem-te-vi

"Todo dia, quando chegava da aula, o bicho estava me esperando perto do portão. Eu já andava com o bodoque na pasta. Era o tempo de colocar a pedra que ele sumia..."




Há um ninho de bem-te-vi na mangueira que dá para a janela do meu quarto. No início, a ave chegou a tirar-me o sono. Foram dois ou três dias sem conseguir dormir pela manhã, em função do seu famoso berro trissilábico. Noite virada no batente, cheguei a improvisar tampão nos ouvidos para ver se abafava a coisa. Nada. O canto do tiranídeo mais parece de trinca-ferro. Uma potência.

Aí, o Vantuir, companheiro de praça, hoje apaixonado pelo que pertence à natureza, chamou a minha atenção para a vida dos pássaros. Falou-me com conhecimento da construção dos ninhos, sobre adultos e filhotes. Revelou-me que, quando garoto, lá pelas bandas de Governador Valadares, costumava atirar pedras com bodoque em tudo o que era bicho: burro, vaca, porco, gato, cachorro, galinha e passarinho. Isso, dos 7 aos 9 anos de idade. Até que levou surra para nunca mais esquecer. Fiz questão de tomar nota do depoimento do Vantuir para contar em nossa Bandeira Dois:

“Josiel, quando a gente é criança tudo é muito maior do que realmente é, mas jamais vou esquecer aquele dia. Sem exagero. Tenho para mim que o bem-te-vi já estava de olho no que eu fazia. Só pode. Da cerca do quintal lá de casa, vivia ouvindo o sujeito. Tentei atirar nele com o meu bodoque de liga de soro um monte de vezes, e ele, muito arisco, sumia nas árvores. Todo dia, quando chegava da aula, o bicho estava me esperando perto do portão. Eu já andava com o bodoque na pasta. Era o tempo de colocar a pedra que ele sumia”.

Nisso, enquanto o Vantuir contava, o povo do Bar do Careca começou a fazer silêncio para ouvir a história. E ele continuou: “Aí, numa tarde, já cheguei armado, com uma bola de gude. Foi tudo muito rápido. Não deu tempo de fazer nada. O bem-te-vi parecia ter ganhado o tamanho de um urubu. Veio com um monte de rasante em cima de mim. Parecia um avião de guerra. E tome bicada, asada, peitada, penada e gritaria. O bicho gritava no meu ouvido, que pensei que fosse ficar surdo. Se a dona Claudete, nossa vizinha, não tivesse me socorrido, eu nem ia tá aqui pra contar. E ele ainda, pode acreditar, consumiu com o meu bodoque. Só sei que depois desse dia toda vez que pensava em atirar uma pedra, ele aparecia pra mim, bravo, feito assombração”, concluiu o companheiro.

Bastante impressionado com a história do Vantuir, na manhã seguinte, quando voltei para casa, levei um papo com o bem-te-vi. Fiz uma doação simbólica e disse que a árvore era dele. Selamos nossa amizade e, finalmente, consegui dormir em paz.


P.S. Trouxe-me muita alegria a presença dos amigos leitores no lançamento do livro Bandeira Dois – Do eu que há em mim, no BH Shopping, na última sexta-feira. Valeu!


(Bandeira Dois - Josiel Botelho - 30 de setembro de 2009)

2 comentários:

Ritai disse...

Hoje cai na sua rede .. e adorei o que encontrei , o que li, é o tipo de texto que gosto
fez-me bem o que li

Ritai disse...

hoje encontrrei a pagina por acidente, mas como um amigo diz nada é acidente.. diria que eu procurava e finalmente consegui encontrar rs.. gostei muito de tudo que li