Vincent - Um solo de amor

sábado, 19 de setembro de 2009

Uma furtiva lágrima

“Entre nós é sexo, diversão! Amor a gente faz em casa. Eu com a minha mulher, você, lá, com o seu marido. Não pode ser diferente.” Foi assim que o Júnior deixou a aluna-amante emudecida, no Parque Municipal, diante do pipoqueiro com olhos de piedade. A mulher havia chutado o pau da barraca e abandonado o marido para se entregar inteira, de corpo e alma, ao instrutor da autoescola. Levou a filha Gabriela, de 6 anos, para a casa dos pais, e, às pressas, foi anunciar o desfecho. Ele, inflamado, respondeu: “Tá maluca?”

Findou-se ali o romance. Júnior, aborrecidíssimo, deu as costas e seguiu sem olhar para trás. Saiu do parque, entrou no carro e rumou Avenida dos Andradas sentido Bairro Nova Vista, Região Leste de Belo Horizonte. Em casa, guardou o veículo sob plástico de proteção prateado e foi ver a esposa, acamada. Dispensou a enfermeira sem muita cerimônia: “Pode ir. Hoje não vou mais precisar de você”. Sentou-se ao lado da mulher, que dormia. Ficou por mais de hora ali, segurando a mão de Izabel, revisitando o passado. O filho, Pedro, passava o fim de semana com os avós, no sítio em Santa Luzia.

Não se sabe de história de amor como a do Júnior e da Izabel. Conheceram-se em baile dos mais animados, no Forró do Manezinho. Ela, 15 anos mais velha, havia acabado de levar fora do namorado. Ele festejava a maioridade com os amigos da escola. Bastaram duas ou três músicas agarradinhos para que houvesse o diabo entre eles. Ficaram, namoraram, se coisaram e, casados, tiveram o Pedro. Depois do nascimento do garoto, Izabel passou a ter sério problema de saúde. Fumante inveterada desde adolescente, desenvolveu enfisema pulmonar e, há três anos, só respira com a ajuda de aparelho. Júnior, doído de amores, passou a viver para a família.

No último ano, com novas complicações respiratórias, Izabel fez o marido prometer dar novo rumo na vida: “Promete?”, suplicou em madrugada de insônia. “Prometo. Prometo. Agora, feche os olhos e tente dormir.” Demorou para que Júnior cumprisse a promessa e se envolvesse com outras donas fora do casamento. No início, foi grande o desconforto, mas, numa tarde, debaixo da vizinha assanhada, pensou sozinho: “É isso. Sexo, simplesmente”. Depois, vez por outra, volta e meia, passou a se enrabichar por indecência. Da última, aluna casada, Júnior não queria mais saber. Izabel acordou e quis entender o motivo:

– E ela?
– Largou o marido.
– Você precisa encontrar alguém.
– Shhh… Olha o que o médico disse...

Beijou-a na testa e enxugou lágrima furtiva em curva seca de sorriso triste.


(Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 19 de setembro de 2009)

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