Vincent - Um solo de amor

sábado, 26 de setembro de 2009

Por uns trocados

A moça do quadril surrado ainda não havia deixado o táxi quando o celular do Adelson tocou. Natasha, passageira de intimidades, percebeu o estado alterado do motorista depois da notícia recebida por telefone. Curiosa, quis saber:

– Tudo bem?
– Meu filho.
– O que aconteceu?
– Está muito mal.

Natasha quis que o taxista a deixasse em qualquer lugar. Não estava longe do combinado e ele fez questão de cumprir a corrida. Deixou-a na Savassi, em hotel luxuoso, e seguiu para o pronto-socorro. “Boa sorte!”, disse a puta. A cabeça voou longe, no passado, em tempos felizes ao lado do filho e da mulher Elvira, com quem dividiu a cama por 15 anos. A separação foi golpe sem misericórdia. Na mesma época, pouco depois que ele saiu de casa, a ex-mulher assumiu romance com pastor, orador da mesma igreja que o casal frequentava.

O instante e a realidade vieram num rompante, com as luzes cor de sangue das viaturas na porta do hospital de urgência a dissolverem a memória. Adelson deixou o carro de aluguel em frente à igreja dos turcos e andou rumo à portaria. Obregon, amigo segurança, de plantão, ao saber do drama do taxista, aliviou a burocracia. Ao ganhar o leito da UTI, Adelson viu a ex-mulher, mãe de olhos fundos e coração partido, velando o coma profundo do filho-homem-feito de 19 anos: Maurinho, presidiário em Ribeirão das Neves.

Por ruindade ou desafeto, gangue de infelicidade espancou o condenado no cair da tarde, em canto qualquer da penitenciária. O estrago no abdômem perfurado foi grande e deixou a vida do moço por um fio, mantida por aparelhos. Pai e mãe ali, mudos, não queriam acreditar que o rebento único estava partindo. Nos olhos de Adelson, o brilho triste da vergonha provocada pela condenação do filho por tráfico de drogas, no início do ano, deu lugar a vazio de infinita tristeza. Mais uma vez, na retina do homem de bem, o passado. Madrugada de batida policial no dia em que a casa caiu.

Maurinho, motoqueiro, tentou fugir da blitz na Avenida dos Andradas. Acelerou e acabou com as mãos na cabeça em cerco da polícia. Flagrante: três quilos de maconha malocados pelo corpo. Espancado, por tortura e força bruta, disse que começou por trocados e entregou o esconderijo na casa dos pais. Adelson e Elvira assistiram da varanda ao policial com cara de bandido desenterrar 12 quilos da droga no quintal. Não teve bom defensor que aliviasse o réu primário: nove anos de cadeia. Madrugada triste. Finado diante dos pais, o garoto não cumpriu um único mês da pena.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 26 de setembro de 2009