Vincent - Um solo de amor

sábado, 5 de setembro de 2009

Uma rua chamada solidão (final)

"O trem BH-Vitória encostou às 7h na estação. João foi o primeiro a encontrar seu lugar no vagão. Fechou os olhos e respirou fundo para espantar a tristeza".




No JK, sob o olhar carinhoso do cão, João e Dorinha lancharam mudos. Não havia assunto ou clima para muita conversa. Por fim, os dois se renderam ao cansaço dos últimos dias. Bagagem arrumada para voltar para casa, no Espírito Santo, enquanto Dorinha tomava banho, João ficou a admirar o tardar da noite na Praça Raul Soares emoldurado pela janela. Procurou fazer cinzas o pensamento em Maria e entendeu hora de dar novo sentido ao significado das coisas. Pensou em Deus e fez breve oração.

Depois de mandar ver prato de bom gosto no Bolão, Carvalini e Maria não trocaram meia dúzia de palavras. O policial não conseguia esconder seu encantamento pela bela prostituta. Pensou dizer muito. Não disse. Apenas levou-a em casa, no São Gabriel. No portão do barracão, beijou-a na boca por instante. Maria sorriu tímida e deixou o carro com ar de quem há muito não era beijada. Entrou sem fazer barulho para não acordar Claudete e Julim. Deitou-se vestida. O beijo de Carvalini a fez voltar ao passado em tempo feliz com João. Sentiu saudade jamais sentida e passou a madrugada pensando dar jeito na vida.

João levantou com o sol e não quis incomodar Dorinha em sono profundo. Escreveu bilhete de gratidão e deixou presente: pequeno brilhante comprado na noite passada. Terninho amarrotado no corpo, fez carinho nas barbas do schnauzer e partiu. Seguiu a pé sentido Praça da Estação. No São Gabriel, Maria se despedia de Claudete e Julim. “Tem certeza?”, perguntou a puta carioca. “É o que quero”, respondeu Maria. Abraçou a amiga, meio mãe, meio filha, e tomou táxi levando mochila com tudo o que tinha. Pela Linha Verde despediu-se da cidade, tão cedo já engarrafada.

Enquanto isso, Carvalini já estava pronto para prender o assassino de fulana. Da delegacia, mandado na mão, rumou para apartamento na Lagoinha. Bigode não resistiu à ordem de prisão. Algemado, chorou única lágrima pela intenção não correspondida, sepultada no Cemitério da Saudade. “Foi por amor”, repetia baixinho no camburão. Inconformado com a rejeição da puta, apaixonada pelo bandido Tuca, o administrador bebeu demais e perdeu o juízo. Esfaqueou fulana e conseguiu deixar o quarto sem ser percebido. No dia seguinte, ao saber das joias e do dinheiro, pensou que seria fácil se safar e incriminar o rival assaltante.

O trem BH-Vitória encostou às 7h na estação. João foi o primeiro a encontrar seu lugar no vagão. Fechou os olhos e respirou fundo para espantar a tristeza. E por desses milagres que só a ficção concede, mal acreditou quando ouviu a voz macia dizer: “João!?”. Ao seu lado, a bela Maria, decidida a esquadrinhar o Espírito Santo em busca de amor perdido.

Fim


(Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 5 de setembro de 2009)

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