Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Antes que o amanhã aconteça (final)

Menina Ariela sacou da bolsa o celular cor-de-rosa e pediu pizza marguerita. Na espera, pai e filha se olhavam, simplesmente. Havia muito entre eles. No silêncio que diz à beça, laço remoído de passado, infelicidade e ausência. “Diabos! Como está parecida com a mãe”, pensava Ananias ao ver a filha ajeitando os dois únicos pratos da quitinete sobre a mesa. O policial aposentado viu na filha a ex-mulher, grande amor e dor de cabeça. O entregador chegou logo com a massa de excelente qualidade. Ariela fez questão de pagar com dinheirinho ganho à tarde, suado nos quadris.

Comeram com gosto. Ananias se rendeu ao sabor em boa companhia. Há dias sem sair de casa, passava apenas a conhaque, café amargo e miojo. Ariela disparou a falar coisa com coisa sem tocar no tempo presente. Também não fez perguntas nem tocou assunto sério. O pai, tímido, até esboçou sorriso seco com comentário da menina: “O senhor ainda tem o mesmo cheiro. É bom”. Ariela, quando pequeninha, vivia a brincar com o desodorante do pai. Um papo puxou outro e, no avanço da madrugada, Ananias insistiu para que a filha ficasse. A menina adormeceu na cama do velho, que não pregou o olho. Trouxe à cena garrafa de conhaque escondida e viu passar a vida no gargalo. Olhou para o corpo feito da filha, de 20 anos incompletos, e ficou a remendar histórias.

Com o sol a lamber as vidraças do JK, Ariela acordou com o pai transtornado, irreconhecível. Ananias havia revirado a bolsa e o celular da filha enquanto ela dormia. Imaginou coisas e, tomado por ideias ruins, construiu teorias de traição. A menina se ofereceu para passar café e foi sabatinada pelo velho. Para a discussão foi um passo. Das perguntas e ofensas às agressões: Ananias retirou do armário taco velho de sinuca, quebrou-o violentamente na mesa e partiu para cima da menina, que conseguiu recuperar a bolsa, abrir a porta e ganhar o corredor. “Não sou mais seu pai, vagabunda! Some da minha vista! Some!”. Daí, o amparo da vizinha.

De volta ao presente, no apartamento da cantora Dorinha, galopam os ponteiros na velocidade do pensamento. As duas mulheres já se entendiam amigas e confidentes. Foi o cão Raul, o schnauzer, o primeiro a reagir ao estampido vindo da quitinete ao lado, emprestada por conhecido ao velho Ananias. Dorinha e Ariela correram para a porta fechada do ex-policial. “Pai”, foi só o que deu conta de soprar a filha com a garganta embargada. Do lado de dentro, ao som de “Perfídia” tocado na vitrola por um tal Trio Irakitan, Ananias sangrava despedida, caído, com um 38 na mão.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 15/11/10

Um comentário:

Cacá disse...

Parabéns, Jefferson por mais este belíssimo conto! O que é bom dura pouco. Estava delirando com esta narrativa que, a despeito da trágica história, é muitíssimo agradável de leitura. Meu grande abraço. paz e bem.