Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Dragoberto, o rei do espeto

Não havia churrasqueiro como o Dragão, marido da Tininha. Um especialista na arte, pecados e prazeres da carne. Depois que inventaram a pelada sem bola então, só dava o cinquentão Dragoberto no manejo da espada de aço. "Futebol é pretexto pro golo. Aqui, perna de pau que é perna de pau vai direto ao assunto", discursa o Beiçola, orgulhoso, fundador do Clube do Jacaré - espécie de confraria de funcionários dos grandes frigoríficos da capital. Mas nas peladas sem bola do Clube do Jacaré, nas noites de segunda-feira, Dragoberto corta e tempera apenas. Há muita gente para cuidar da brasa. O sujeito reina é nas festas em casas de família, nos fins de semana.

Tininha, fogosa, mulher e companheira, até gosta de exibir o almoxarife: "Sabe tudo de carne o Dragão. Nem me importo em emprestar o marido para o churrasco na casa dos outros. Ele é tão bom na coisa que seria muito egoísmo da minha parte Junim", comentou certa vez no salão, enquanto recebia um trato nas madeixas. Na agenda do rei do espeto, pelos próximos oito meses, mal havia tempo para comparecer em casa, no Bairro São Geraldo. Para complicar a situação, uma festa puxava outra, que puxava outra e mais outra. Com o Dragão, o boca a boca não falha. "O senhor bem que podia fazer uma carne dessas, qualquer dia desses, lá em casa", implora a mulherada, enlouquecida.

Para a turma do Clube do Jacaré, Dragoberto podia fazer fortuna com tanta demanda. Toda segunda-feira era a mesma história: "No seu lugar eu tava rico, Dragão. Bota preço. Bota preço, meu velho! O Juca, do Assacabrasa, começou assim e hoje tá bem na fita. O cara virou uma potência. Ouvi dizer que já tem Assacabrasa até no estrangeiro. Você é o cara, Dragão! Aqui você só corta e tempera porque já tem muita gente pra girar o espeto. Bota preço, Dragão. Bota preço!", engrossava o coro o presidente Beiçola. Só que o Dragoberto nem pensava cobrar. "É por prazer. Por prazer", suspira em particular, cheirando as mãos.

E não havia preço mesmo. O talento natural do churrasqueiro, almoxarife na carteira de trabalho, fazia ele se sentir útil, importante. No frigorífico, era crachá qualquer. Apenas mais um a carimbar notas e contar volumes por vencimento minguado. Já com as carnes, não. Ali, havia Deus e o diabo entre os dedos do Dragão. Baixinho e barrigudo, entendia charme e privilégio o dom e a virtude. Sentia-se querido, importante: amigo dos homens e desejado pelas mulheres. Não sabia muito bem o segredo. Verdade é que as moçoilas, dos 18 aos 80, se desmanchavam aguadas com os cortes temperados do Dragão.

Diferentemente do que pensa o leitor mais assanhado, sexo o Dragoberto só faz em casa. Debaixo, ao lado ou em cima da Tininha, aos gemidos de "espeta, espeta, Draaagaaão!!!"

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 22/11/10

Um comentário:

Cacá disse...

Eu bem que gostaria de conhecer o Dagoberto. Andei fazendo uns cursos de colinária lá no Senac e fiquei meio metido a preparar umas carnes também. Só por prazer, só por prazer. rsrs. Muito legal, Jefferson! Meu abraço. Paz e bem.