Fantástico - Vai fazer o quê?

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A última lição do mestre K

K estava para morrer. Professor do Zé Coió, aluno nervosinho, ignorante, desses montes que abarrotam as salas das escolas de Belo Horizonte. Mestre K, no entanto, só queria ensinar. E se fosse para morrer, assim sendo, queria morrer no exercício do ensino. Pela educação, morria sim o mestre K. Já Zé Coió não queria aprender. Pensava ter nascido sabendo, cheio de si e de invocação. Desde moleque desconhecia limite, fazia e acontecia. PhD em confusão e pancadaria. Mas Zé Coió, mesmo sem querer, precisava frequentar escola. Fazer o quê? Ao menos para agradar a família ou fingir que estava disposto a valer a pena. Exigência do mercado, coisa da vida. Deu que Zé Coió, homem feito (?) foi parar na sala de aula do Mestre K. Pós-Doutor no trato com alunos-problemas, que, em 16 anos de magistério, já havia resgatado dezenas de maus elementos. “São os que mais precisam da gente”, repetia K, nas reuniões de emergência com a diretoria. E como havia emergência!

Mestre K não se cansava. Vivia para as salas de recuperação. Ainda mais depois que o ensino se tornou negócio dos mais lucrativos, capaz de fazer brotar faculdades pelas paredes, aos borbotões. Com isso, todo mundo, até o sujeito mais despreparado, agora, podia ter curso superior (?). Vestibular pra quê? A moda agora é “processo seletivo diferenciado”. Mamata. Uma beleza! Tem dinheiro pra pagar? Pronto. Tá na facu. Por que não? E os gestores das facus, de Norte a Sul, só no comando: “50. Vamos bater meta. É 50 alunos por turma e não tem mais conversa”. Tá certo. Afinal, a demanda é grande. É tanta gente ignorante. Facu neles!? Educadores como Mestre K chamavam a atenção: “Pessoal, vamos trabalhar a seleção. O nível dos calouros está pela hora da morte”. Para os investidores, sabichões do en$ino, preocupação apenas com a tesouraria: “Primeiro, os negócios. A educação... a educação fica pra depois”.

Enquanto Mestre K tentava recuperar o irrecuperável, nos jornais, notas noticiavam em cor-de-sangue a onda de violência contra professores. No papel, há tempos, ameaça e agressão já são rotina em letras menores, pelos cantos das colunas policiais. Naquela semana, a manchete sensacional estava guardada para Mestre K. Gente boa, atleta, muito mais preocupado em resgatar do que punir gente sem juízo ou falta de noção. Assustado, porém. O professor andava espantado com abuso e desrespeito. K chegou a comentar com colega docente: “A coisa tá feia, Corrêa. Qualquer dia desses, levamos um tiro. Um tiro”. Não demorou o crime anunciado. Dia comum, noite de aula de recuperação. Zé Coió, irado, covarde, mandou ver faca sem dó nem piedade. Não gostou da nota ruim o ignorante. Mestre K, ensanguentado, mesmo sem vida, deixou última lição ao criminoso: ignorância mata.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 13/12/10

2 comentários:

Cacá disse...

Olá, Jefferson! A situação, de preocupante já está passando a temerária. Vi esta semana o Sinpro denunciar que a maior parte das escolas particulares vive esse drama cotidianamente e esconde a fim de não perder alunos. A geração jovem atual parece não conhecer muito bem a noção de limites da sociabilidade. Não sei aonde vamos chegar , mas sei que o lugar não será bom num futuro próximo. abraços. Paz e bem.

Rodrigo Robleño. disse...

Olá, Jefferson. Meu nmé é Rodrigo Robleño, entre outras coisas palhaço e "autor" do "Poema do Concreto Armado". Na verdade, agora te escrevo para repassar um convite que segue abaixo, e tem a ver com esse seu texto (que muito comoveu aos familiares e amigs, diga-se de passagem):
Boa tarde,

Com o objetivo de transformar momentos de dor e tristeza em momentos de luta, a família caixeta gomes convida os amigos e familiares para o lançamento do site sobre Kássio

que acontecerá amanhã dia 17/03 ás 16 horas no auditório do Sinpro Minas (Rua jaime gomes, 198, floresta, bh).

Contamos com a presença de todos.


at. Simone Maria Caixeta