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quarta-feira, 31 de março de 2010

O FIT basta?

Há muito ainda a ser esclarecido. A questão agora é outra: diante de tanta trapalhada, a edição 2010 do FIT basta? Pão e circo? Não pode ser o fim. Sabemos todos que não é bem assim. O mau-trato com o festival internacional de teatro apenas provocou a revolta. A PBH, enfim, parece ter entendido que o FIT está acima da má vontade política de qualquer burocrata de gabinete. No entanto, a cultura em Belo Horizonte não pode se resumir ao FIT 2010. Não dá também para deixar de considerar a importância de Carlos Rocha e Eid Ribeiro para o sucesso do evento, hoje, lei municipal. Os dois artistas, realizadores dos mais importantes do Brasil, não podem ser destratados dessa maneira.

Hoje, no Estado de Minas e no jornal O Tempo, mais páginas de desdobramento. A reportagem do companheiro Sérgio Rodrigo é o que vem a seguir. Logo abaixo, excelente matéria no caderno Magazine, escrita por Soraya Belusi.




Reviravolta no FIT

Por Sérgio Rodrigo Reis

A novela do Festival Internacional de Teatro, Palco & Rua de Belo Horizonte (FIT) teve mais um capítulo crucial. Na manhã de ontem, depois de os até então curadores do evento, Eid Ribeiro e Richard Santana, distribuírem carta aberta à imprensa colocando os cargos à disposição, houve uma reviravolta na situação e o festival voltou a figurar na programação de 2010. Se tudo ocorrer como anunciado, o evento deverá ocorrer em agosto, numa versão não tão grandiosa como era a intenção original, mas não tão reduzida como alardeavam os pessimistas.

A presidente da Fundação Municipal de Cultura (FMC), Thaïs Pimentel, afirma que voltou atrás da decisão depois de ouvir os envolvidos. “Compreendemos que é possível superar as dificuldades, que sempre existiram e vão continuar existindo no setor público. Quando propusemos o adiamento, estávamos querendo ganhar tempo para superar dificuldades e realizar o evento com mais calma.” O clima agora é de contagem regressiva.

Durante a coletiva em que distribuíram a carta de demissão endereçada à presidente da FMC, os curadores demissionários reconheceram que a situação de dificuldades não é nenhuma novidade. “Sempre tivemos problemas orçamentários e administrativos, mas desta vez foi a gota d’água”, reclamou Eid Ribeiro, que, ao lado de Richard, já havia cumprido a etapa de pré-produção com a escolha de parte dos espetáculos internacionais. Os trabalhos deverão servir de base para o festival deste ano.

Thaïs Pimentel continua sustentando a necessidade da mudança de realização do evento para anos ímpares, por ser “mais confortável e promissora”. “A realização de eleições municipais e outros eventos nas datas pares compromete o calendário oficial da cidade”, salienta. Ainda segundo ela, já existe garantia de recursos para o festival e, a partir de agora, o trabalho é para criar viabilidade técnica e orçamentária para produção do evento. “Nos próximos dias anunciaremos as etapas futuras.” As definições sobre os nomes dos curadores e dos acréscimos à programação internacional, bem como as peças mineiras selecionadas, serão anunciadas oportunamente. A presidente faz questão de ressaltar ainda que o FIT é um evento da cidade, parte integrante da grade cultural do município. “Não tem um dono”, frisa.


Carta aberta

Os curadores demissionários do FIT, Eid Ribeiro e Richard Santana, convocaram a imprensa, na manhã de ontem, para entregar carta aberta endereçada à presidente da Fundação Municipal de Cultura, Thaïs Pimentel, em que colocam os “cargos” à disposição da prefeitura. Os motivos alegados foram, principalmente, atraso nos salários e no repasse de verbas para viagens internacionais e nacionais de seleção das peças. A presidente, que só recebeu a carta no início da tarde, disse que a “questão de atraso de verbas e dificuldades em viagens não pode ser colocada neste nível”.

No documento, os curadores justificaram a atitude extrema alegando que, “por razões éticas e em respeito aos participantes inscritos na seleção”, estavam apenas aguardando concluir esse compromisso para poder esclarecer ao público os reais motivos que levaram ao adiamento da 10º edição do FIT, cuja responsabilidade está sendo atribuída a eles. Explicaram ainda que passaram o primeiro semestre de 2009 sem “salário”, com falta de recursos para viagens e que, no segundo semestre, as verbas para as primeiras viagens saíram, mas foram novamente interrompidas pouco tempo depois. Por fim, alegaram que em janeiro tiveram uma reunião com o diretor geral, Carlos Rocha, solicitando uma resposta institucional, que não veio.

Thaïs Pimentel rebateu as críticas dizendo que, em 10 edições do festival, dificuldades sempre existiram e são naturais ao setor público. “Porém, sempre foram superadas.” Ainda de acordo com a presidente da FMC, não se pode falar em atraso de salários, no caso de profissionais terceirizados, contratados para trabalhos específicos e que não têm vínculo empregatício com o município. “O que vamos fazer de agora em diante é tratar de superar as adversidades e trabalhar na produção”, garante Thaïs.

A decisão de realização do FIT pegou de surpresa um dos personagens cruciais: o diretor geral Carlos Rocha. Nos últimos dias, o diretor anunciou que não participaria de uma versão reduzida, devido ao receio da realização de uma edição “desastrosa”. Ontem, foi procurado pela Fundação para ponderar a decisão. “Pedi 24 horas para pensar e conversar com os envolvidos”, afirmou.
Só o tempo dirá se a decisão da realização da 10ª edição do FIT ficará na história ou será algo para ser esquecido.


Espetáculos e companhias
que podem fazer parte da programação do FIT -2010

Internacionais
Jamais 202 – Generik Vapeur (França)
Carrillon – Kitonb Project (Itália)
ID – Cirque Eloize (Canadá)
Upon reaching the sun – Kibbutz C.
Dance Company (Israel)
Waiting room – Farm in the cave (República Tcheca)
Lote 77 – Producción Independiente (Argentina)
Copacabana – Ponten Pie (Espanha)
Odisea – Teatro de Los Anges (Bolívia)
Mulher asfalto – Mutumbela Gogo (Moçambique)
Controlled falling project – This side up (Austrália)
Fisura 2 – Cia. Gestual de Chile (Chile)
Light touch – Scarabeus (Grã-Bretanha)
Un sogno in red & blue – Faver Teater (Itália)
Mamas – Cia. Planet Pas Net (França)
Woyzeck – Sadari M. Laboratory (Coréia do Sul)
Sonho de uma noite de verão – Yohangza T. Company (Coréia do Sul)
Neva – Teatro en el Blanco (Chile)

Nacionais
Memória da cana – Os fofos em cena (São Paulo)
Balada dos palhaços – Grupo Artes e Fatos (Goiânia)
Dom Quixote – Teatro Que Roda (Goiânia)
In on it – Cia. dos Atores (Rio de Janeiro)

Locais
A relação deverá ser divulgada até o dia 7 de abril.

Estado de Minas - Sérgio Rodrigo Reis - 31/3/10



Prefeitura garante FIT em 2010

Por Soraya Belusi

Em um período de apenas cinco horas, das 10h às 15h de ontem, vários fatos mudaram o rumo da história que se refere à realização da 10ª edição do Festival Internacional de Teatro Palco & Rua de Belo Horizonte (FIT-BH).

A manhã de terça-feira começou com entrevista coletiva dos curadores do evento, Eid Ribeiro e Richard Santana, que informaram suas respectivas demissões do cargo. Os dois encaminharam uma carta aberta à presidente da Fundação Municipal de Cultura, Thaís Pimentel.

Diante da demissão de seus companheiros de equipe, Carlos Rocha, coordenador geral do FIT, mais conhecido como Carlão, disse ao Magazine, por volta das 12h, que teria que reavaliar como se daria a produção da edição que aconteceria em 2011, já que profissionais importantes para a realização do festival haviam se desligado- incluindo a diretora de produção, Ana Luiza Bosco, que se demitiu em fevereiro. Mas, três horas depois, a Prefeitura e a FMC anunciaram, em comunicado oficial, a manutenção da edição deste ano do FIT, sendo que Carlão não foi consultado ou sequer informado de tal decisão. Isso quase levou a mais uma baixa na equipe, com a saída de Carlão da coordenação do evento, mas ele voltou atrás em sua decisão após reunir-se com a presidente da FMC na tarde de ontem e disse que irá fazer seu "último exame de consciência" até dar sua resposta definitiva, mais tardar até o início da tarde de hoje.

Segundo Thaís Pimentel, após perceber a reação da classe artística e da sociedade civil diante do adiamento da 10ª edição, ela e o prefeito Marcio Lacerda decidiram rever a decisão anunciada há duas semanas. "O anúncio do adiamento não foi um ato impensado. Mas, diante das reações ao que dissemos, foi necessário avaliar todas as situações que se colocavam. Anunciamos o adiamento achando que seria a melhor atitude, mas, ao fazê-lo, escutamos o retumbar dos tambores, o que nos deixou atentos", justifica a presidente da FMC sobre a mudança de posição da instituição.

"Avaliamos também internamente sobre aquelas questões que a curadoria dizia ser intransponíveis para a realização do evento e chegamos à conclusão de que podem ser superadas. Eles nos falavam que, no entendimento deles, o FIT estaria comprometido. Avaliamos que é possível reverter esse quadro, existe uma pré-produção realizada por eles, que foi fundamental e será uma base para o nosso trabalho. Eles trabalhavam com o que seria desejável, e vamos partir da ideia do possível", diz a presidente da FMC.

Thaís disse ainda que houve um ruído de comunicação com Carlão e que se reuniria com ele no fim da tarde de ontem. Mas que, se a demissão do coordenador do FIT for confirmada, terá que pensar novos nomes para o cargo, assim como para a curadoria. "No serviço público é assim, as pessoas entram e saem", justifica ela, que, ainda assim, garante que a edição deste ano será realizada mesmo que tenha que ser criada uma nova equipe de trabalho. "O único meio que eu tenho como garantia é a minha palavra", diz.

Carlão se reuniu com a diretoria da FMC e com a presidente da Fundação, quando ouviu pedidos para que continuasse no cargo. "Vou conversar com o Roberto (Teixeira, diretor de logística), para saber até que ponto essa missão impossível será possível, quais as companhias tenho para fazer. Sozinho não tem jeito", diz Carlão.

O Tempo - Soraya Belusi - 31/3/10

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