Vincent - Um solo de amor

sábado, 6 de março de 2010

JackDaniels e Muleka42 (4)


Dentro do fuscão branco, tatuada, a mulher da foto. Os três se olharam e entenderam a confusão. Maria Helena quis ter certeza do engano: “JackDaniels?”, perguntou. “Não... JohnnieWalker”, respondeu o bigode, que emendou: “Mas a gente já tá aqui… quem sabe um programa a três? Acho que a Madonna32 ali não ia achar ruim”. A professora negou com a cabeça, sorriu amarelo e calçou os sapatos. Ligou o Honda Fit e arrancou. Pelo retrovisor, ainda pôde ver JohnnieWalker e Madonna32 abocanhados, numa vontade voraz, encostados no jipe sujo de lama.

O caminho de volta foi longo. O sol se afundava nas curvas de Macacos, em São Sebastião das Águas Claras. A professora, sozinha, aproveitou a estrada para pensar no ocorrido. O coração saltava como se estivesse às bordas de arrependimento. “Você não fez nada. Nada”, dizia para a Muleka42 guardada em segredo. Num solilóquio endurecido, confuso, prosseguiu: “Como tem mulher carente nessa cidade, meu Deus! ‘Madonna32’. Credo! E aquele cara? Um maluco! Sujeitinho mais indecente. Ainda bem que o tal JackDaniels não foi. Cretino. Que piloto de avião o quê!? Deve ser algum moleque, desses viciados em internet, acostumado a seduzir a mulherada. Como pude ter sido tão idiota? E o poema do André Di Bernardi que ele me escreveu? Palhaçada”. No rádio, Dolores O’Riordan soltava a voz.

Ainda não eram 19h quando ela estacionou em casa, no Bairro Buritis. O marido, corretor, já havia chegado de Pará de Minas. Estava só, na cozinha, mandando ver pamonha com requeijão. Feliz pelo bom negócio fechado com fazendeiro, disse para a mulher: “Tem um presentinho pra você lá no quarto, em cima do criado”. Ela sorriu tímida e foi ver o mimo. Desde sempre era assim: toda vez que o Leopoldo vendia um imóvel presenteava a mulher. Quanto maior a comissão, melhor o agrado. Maria Helena voltou com os olhos umedecidos e um par de brincos caros nas mãos. Respirou fundo, beijou a testa do marido e foi lavar-se quase que por desespero.

Ficou por quase hora na suíte com vista para a Mata do Cercadinho. Fogosa, incendiada por dentro, vestiu sua melhor lingerie e decidiu procurar o marido para mergulho íntimo e profundo. Queria enterrar de vez as diferenças. Acabar com a distância tola dos últimos anos. Pelas bodas de prata, pelos filhos e por amor, perfumou-se para dar ao marido noite inesquecível. Antes, porém, aproveitando-se da ausência do companheiro no quarto, ligou o notebook para espinafrar o tal JackDaniels, piloto de avião. Antes de passar e-mail, resolveu procurá-lo na sala de bate-papo virtual. Não deu outra: lá estava o sujeitinho com nome de uísque, que, sem perder tempo, disparou um Di Bernardi:

“Muleka42,
‘Quando das folhas surgirem as flores
criarei também raízes
e sobre as rosas e os seus
espinhos falarei mais tarde,
para o completo tormento
dos sentidos’”.

(Continua no próximo sábado)

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 6/3/10

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