Vincent - Um solo de amor

sábado, 13 de março de 2010

JackDaniels e Muleka42 (final)

Depois de mandar ver mais um poema de André Di Bernardi, JackDaniels bambeou as pernas da professora Maria Helena – ali, na sala de bate-papo virtual, conhecida como Muleka42. O piloto de avião – como se diz – foi mais longe e, sincero, ao pedir desculpas pelo bolo da tarde, na quebrada em Macacos, abriu o coração como poucos dão conta de fazer:

“Sei que vc deve tá chateada comigo. Não tiro-lhe a razão. Coisa feia combinar e não comparecer. Mas quero que saiba que foi por amor. Não desses de mentira que muitos dizem ou escrevem fácil por aí. Falo do amor que está acima da brasa breve dos quadris. Daquele que faz a gente passar uma vida inteira ao lado de alguém sem nem se preocupar em saber como ou porque”. Muleka42 permaneceu estática, sem interromper o sujeito, apenas com o olhar fixo na tela do notebook, atenta ao que ele escrevia:

“Sou casado, vc sabe. Hoje, domingo, quando deixei minha mulher em casa, dizendo que ia trabalhar, sei lá, não sei bem explicar, bateu um arrependimento enorme de ter marcado o encontro com vc. Não trocamos telefone. Dei o meu e-mail para vc, mas fiquei sem o seu. Não tive como avisar. Até pensei em comparecer e dizer isso pessoalmente. Tive medo de não dar conta. A carne é fraca e na carência, vc sabe, a gente acaba perdendo a cabeça. Vc, Muleka, me parece ser do tipo da mulher pra toda a vida. Conversamos duas horas, talvez nem isso, mas senti-me profundamente envolvido com você. Não me leve a mal, moça. Seja feliz. É o que desejo a vc. Hoje, véspera do meu aniversário de casamento, passo a viver meu amor sem escalas. Estou decidido a fazer de tudo para resgatar a minha companheira. Seja feliz”.

Maria Helena já não estava mais on-line para ler a última linha do cidadão honesto. Na altura daquele ajuntamento das letras, ela já havia invadido o escritório do Leopoldo, no barracão dos fundos. Com o coração às cambalhotas, a professora arrancou o marido da frente do monitor pelos colarinhos e beijou-lhe o beijo mais molhado de toda a vida. Arrancou-lhe a roupa com habilidade de profissional e deu-lhe sobre a mesa de vidro a chave indecente do corpo em segredo. Ensandecidos, os quarentões se amaram com o atrevimento dos moleques. Nem de longe lembravam o casal preguiçoso e sem sal da noite passada. Esquadrinharam-se gulosos como da primeira vez, num acampamento batista na Serra do Cipó.

Embolados no chão, acabados em suor, nem deram confiança para o computador ligado, ladeado por uma garrafa de uísque vazia e pelo livro aberto do poeta Di Bernardi.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 13/3/10

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