Vincent - Um solo de amor

sexta-feira, 5 de março de 2010

De mulher para mulher

Mulheres em crise é das boas comédias em cartaz no último fim de semana da Campanha de Popularização do Teatro e da Dança. A trupe comandada por Wesley Marchiori dá conta do recado e garante ao espectador mais de uma hora de entretenimento e (até) reflexão. No que diz respeito à encenação, a montagem é de visível desvelo. Muito boa a produção que ampara o texto de Emília Marcílio – também protagonista da trama. O roteiro é desabafo de quem sabe o que diz, com experiência de vida, de comédia e boa vontade de fazer o outro rir do que, muitas vezes, parece nem ter remédio. Autora e companhia se apropriaram da ideia. São mulheres falando sobre mulheres, numa mistura sedutora e feliz de delicadeza, romantismo, escracho e sacanagem.

Tão divertida, quando se pretende séria – especialmente por meio do distanciamento, recurso de interpretação – Mulheres em crise se perde no campo do discurso. Fica chata e se alonga. Parece desnecessário à peça fazer-se óbvia no que já está tão bem contado em subtexto e intenção. Senão menor de dramaturgia perto de sua real estatura. A direção de Wesley Marchiori é limpa, ágil, distante do lugar-comum. Tem desenho e tiradas coreográficas divertidas e eficientes. Excelente o uso das geladeiras coloridas. O diretor – que também é bom autor – conseguiu maximizar as boas sacadas do texto. Soube agregar conjunto de luz, seleção musical, cenário e figurino. Aliás, as roupas e bolsas produzidas por Andrea Maia dão charme a mais ao elenco de Mulheres em crise.

Emília Marcílio não é novidade no tablado. Boa atriz, repete o desempenho de sucesso em A virgem de 40 – Agora ou nunca. A surpresa é Lívia Galdêncio, que, caricata e vazia em apresentação de estreia no ano passado, consegue dar a volta por cima e erguer personagem arrebatadora. Faz de papel difícil, certamente, rampa de salto na carreira. Gabriela Chiari é outra que cresceu no trabalho. Agora, encarna com habilidade tipinho interessante de segredos. Ótima de texto, verve e timing, tem recursos bem particulares. Nilmara Gomes – do time das melhores atrizes de Minas – é contraponto perfeito em Mulheres em crise. Passeia pela missão de boa mulher casada, ingênua e trabalhadeira. Fácil acreditar em suas emoções construídas. Renan Rangel, único homem no elenco, tem bons momentos iniciais por química com Emília Marcílio. Porém, ao longo da peça, perde a mão e ainda se mostra despreparado.

Por tudo o que há de melhor em Mulheres em crise, Gustavo Becker, produtor, começa com o pé direito como empreendedor. Traz à cena comédia de diferencial que merece vida longa. Em terras que têm, em grande parte, plateias que gostam de valorizar o humor e, por trás dos muros, corrente miúda que trabalha contra o maior evento popular do teatro no Brasil, a graça bem vestida vai ter sempre o seu lugar.


MULHERES EM CRISE
Sexta e sábado, às 19h, no Espaço Cultural Imaculada, Rua Aimorés, 1.600, Lourdes. Tel (31) 3014-5382. Ingressos: R$ 10 nos postos do Sinparc. Classificação: 14 anos.

Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 5/3/10

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