Vincent - Um solo de amor

sexta-feira, 26 de março de 2010

Clássico e zombeteiro

É preciso coragem à pena para zombar do amor como fez Bernard Shaw (1856-1950). Simbolista e tragicômico, o escritor irlandês parecia conhecer as mazelas da alma humana. Em Cândida, o mote para chiste é um casamento sólido, ameaçado pelos devaneios de um terceiro, jovem poeta. Muito além do que se levanta simples assombro de infidelidade, a peça compõe eficiente triângulo de contradições. A montagem do Núcleo Experimental de São Paulo, em turnê pelo Brasil, que chega hoje para fim de semana no Teatro Alterosa, apropria-se com competência da sátira romântica de Shaw.

O espetáculo dirigido por Zé Henrique de Paula não é menos corajoso do que o texto do considerado dramaturgo. Alinham-se em atrevimento. Zé Henrique faz desenho abusado de encenação, dando liberdade e dose a mais de graça ao elenco. Sem comprometer de forma alguma ou sobrepor-se ao que há de melhor na dramaturgia, o diretor oferece à plateia irreverência aos borbotões. Já em prólogo, no proscênio, Zé Henrique apresenta suas personagens como peças de tabuleiro, prontas para jogo de humor cruzado e perspicaz. Com encenação ágil, sem barrigas, os móveis são redesenhados e os dois janelões ao fundo revelam iluminação e cenário de suporte e bom gosto para quase duas horas de duração. Os figurinos nada demais, também não são de menos e se ajustam à proposta. A música, discretíssima, atenua a limpeza presente no todo.

Maior que a direção só mesmo o elenco conduzido por ela. O que se vê do terceiro sinal em diante é mostra de capacidades. A trupe de Zé Henrique não maltrata vírgulas do muito texto que detém. A começar por Thiago Ledier, narrador eficiente e assistente indefectível do reverendo Morell. O ator sabe bem como tratar seus parágrafos. Fernanda Maia está impagável no papel da datilógrafa Prosérpina. Comediante clássica, das boas, daquelas que fazem risíveis os pensamentos. Tem química notável com todos os parceiros. Sérgio Mastropasqua, como Morell, reverendo e marido da protagonista –papel mais difícil da trama –, mantém-se crível no trânsito de suas mais variadas verdades e intenções. É tão forte e seguro, quanto fraco e vulnerável.

Thiago Carreira, o garoto-poeta, surpreende. Veste-se muito bem do papel afeminado, sonhador e atrevido que lhe cabe. Diz com beleza seus versos e encara em pé de igualdade a força e a experiência de seus colegas de cena. Bia Seidl, Cândida, sincera e comedida, seduz pelo que é diminuto. Sem sobras, ergue com competência de grande intérprete em papel elegante e encantador. Demonstra domínio de sua construção e faz jogo rico de nuanças e inflexões, ao preencher-se com arroubo e delicadeza. João Bourbonnais, Sr. Burgess, é quem mais se arrisca na empreitada. Quase caricato, o ator faz do palco trapézio de ousadias. No entanto, bufão habilidoso, sobrevive à própria armadilha. Ao lado de Fernanda Maia, tem o público na mão.

Não apenas por texto, direção e elenco Cândida merece audiência. Mas, principalmente, pela realização exemplar de comédia de conteúdo que foge a tudo o que é fácil, raso, ligeiro e preconceituoso – tão comumente visto por aí. Programão para quem busca mais que entretenimento.

Cândida
Teatro Alterosa, Av. Assis Chateaubriand, 499 – Floresta – (31) 3237-611. Hoje e amanhã, às 21h; domingo, às 18h. Ingressos à venda na bilheteria do teatro, que funciona das 12h às 19h30. R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada para estudantes, menores de 21 anos, maiores de 60 anos e categorias devidamente identificadas). Assinantes do Estado de Minas têm 20% de desconto no valor da inteira. Classificação: 12 anos.

Estado de MInas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 26/3/10

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