Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 29 de março de 2010

Quando mais é menos

A carência pelo gênero e por realizações de porte em Belo Horizonte faz o musical de Claudia Raia parecer ter saído da Broadway. No fim de semana, com o Palácio das Artes lotado, boa parte da plateia se encantou com os recursos visuais e tecnológicos da peça, que segue turnê pelo Brasil. A caixa cênica com projeções de vídeos e grafismos bem elaborados, boa orquestra e os figurinos luxuosos de Márcio Medina acentuam a grandeza da produção. Contudo, às vezes mais é menos e Pernas pro ar não diz tanto quanto se pretende. A começar por falta de fôlego da dramaturgia para os seus 100 minutos.

Com notada inclinação a buscar algo mais do que pretexto para coreografias, o roteiro perde força no caminhar da hora e se revela frágil em seu desdobramento. A direção de Cacá Carvalho não dá conta de sustentar as deficiências do argumento de Luís Fernando Veríssimo. O texto de Marcelo Saback também se desgasta em duração e não consegue ir além de meia dúzia de bons diálogos e solilóquios. De doer são algumas traduções, sendo a pior delas You can leave yort hat on, composição de Randy Newman, que encerra muito mal a saga em sonho da dona de casa Helô, vivida por Claudia Raia.

No entanto, seria desrespeitoso prender-se apenas aos defeitos de Pernas pro ar. Há que se reconhecer a competência do elenco que a defende. Claudia Raia, polivalente, nos palcos ou na TV, vem construindo carreira de solidez e amplitude. Em Pernas pro ar, a atriz se joga com absoluto desprendimento. Com verve cômica e consciência corporal admiráveis, detém o público e dá vida própria às pernas como se as desmembrasse. Generosa, como poucas de sua estatura, permite que os companheiros também tenham espaço para mostrar serviço. Que o digam Marcos Tumura, Jarbas Homem de Mello e Hellen de Castro.

Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 29/3/10

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