Van Gogh - Temporada 2017

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Estreia dia 17, no Teatro Marília

sábado, 27 de março de 2010

Dia de homenagem e reflexão

Em Belo Horizonte, o Dia Mundial do Teatro é marcado com manifestação pelo descaso do poder público com a cultura. Desde o anúncio do cancelamento do Fit 2010, artistas se mobilizam para exigir mais respeito por parte dos burocratas de gabinete. A falta de comprometimento da Fundação Municipal da Cultura com o festival internacional de teatro foi gota d'água pelos abusos dos últimos tempos.

Abaixo, texto em homenagem ao Dia Mundial do Teatro, escrito pelo jornalista Carlos Pinto. Uma oração, que lembra Lorca com "um povo que não ajuda ou não fomenta seu teatro, se não está morto, está moribundo."

Logo a seguir, texto de outro jornalista não menos comprometido com a cultura: João Paulo propõe reflexão que merece conhecimento e repasse. O artigo foi publicado no caderno Pensar, na edição de hoje, do jornal Estado de Minas.




"Dia Mundial do Teatro

Vinte e sete de março é internacionalmente comemorado como o Dia Mundial do Teatro. Retrocedendo no tempo, anterior ao período cristão e que marca o nosso atual calendário, vamos encontrar a Grécia Antiga, palco florescente de todas as artes, em especial a arte cênica. Talvez por falta de um material mais consistente que remonte aos tempos de Téspis, encenador e dramaturgo que se ocupava de uma carroça para concretizar seus espetáculos em praças públicas, de uma cidade para outra, os grandes historiadores do teatro se concentram na tragédia grega como o ponto inicial dessa arte que até hoje sobrevive a todas as guerras e dificuldades.

Para alguns desses historiadores, a tragédia teria nascido de um culto, junto ao altar de algum deus, e que seria uma das maravilhas espirituais do mundo marcando a união de drama e povo, afirmando e fortalecendo a Grécia de então. Para eles, drama tem o significado de ação e, entre todas as ações dramáticas, a tragédia seria a jóia de maior preço. Dificilmente existirá um poeta, um filósofo, um estadista ou um sábio, que não se tenha detido alguma vez, demoradamente, com seu pensamento, analisando a essência da tragédia, porque com certeza sentiu na própria vida os perigos que enfrentou quando, ao se empenhar em grandes tarefas, cruzou com a incerteza, a contingência de uma idéia em que se empenhara.

Sentiram, que não chega aquilo que na terra nos é oferecido como compensação de aflições íntimas. Sentiram muito mais: a divindade que não responde ao suplicante, por que não se pode colocar em palavras aquilo que ela poderia nos responder, já que as palavras não passam de uma invenção humana, e nada mais são do que metáforas. A divindade nos deixa apenas pressentir que existe, quer seja através das palavras elevadas dos fundadores das várias religiões e dos profetas, da linguagem dos poetas e escultores, da música e seus compositores ou do sucesso de um feito concretizado com coragem e amplitude de responsabilidade, ou mesmo, de um fracasso resultante da extravagância e da irresponsabilidade humana.

Tudo isto alimentou a tragédia antiga, a cujo campo pertencem os conflitos entre a moral e a paixão, a lei e o direito natural, a medida e o orgulho, entre o conhecimento e um impulso inconsiderado que nos tenta levar às estrelas. Da hipertrofia do eu, que resultam as exigências que visam o mundo e raras vezes serão satisfeitas. E, de contrários duros e inexoráveis, nasce a tragédia, a flor escura e turva onde as gotas do orvalho são lágrimas de um deus compassivo.

Na decorrência desta criação artística do homem, seguiram-se as várias nuances da arte cênica, desenvolvidas através da comédia grega, do teatro greco-romano, dos mistérios medievais, o drama do renascimento e a comédia dell´arte, o drama pastoril e os dramas populares, o drama shakespeariano, o mimo, a ópera barroca, o teatro popular do barroco, a dramaturgia francesa de Racine, Corneille, Moliére, o drama alemão do iluminismo, a dramaturgia revolucionária do romantismo e do realismo, a dramaturgia burguesa, o drama social, o expressionismo e tantas outras vertentes desta arte que retrata o cotidiano das nações e da raça humana.

Pelo tanto de história, e pelo valor que representa na formação e educação cultural da sociedade, brindemos neste 27 de março a mais um Dia Internacional do Teatro, aproveitando para orar aos nossos governantes no sentido de que, dediquem parte do seu tempo a promover a produção cultural deste país. Como dizia Garcia Lorca, "um povo que não ajuda ou não fomenta seu teatro, se não está morto, está moribundo."

Carlos Pinto, jornalista
Presidente do Instituto Cultural de Artes Cênicas do Estado de São Paulo e Secretário de Cultura de Santos.(24/03/02)






"Crise e comemoração

A área pública da Cultura passou por dois momentos importantes recentemente. De um lado, no âmbito municipal, a crise evidenciada pelo adiamento do Festival Internacional de Teatro (FIT) para o ano que vem; de outro, as celebrações pela inauguração das primeiras unidades do Circuito da Praça da Liberdade, iniciativa do governo do estado. A aparente contradição entre os dois sentimentos – de angústia e regozijo – é apenas superficial. Os dois casos refletem situações que merecem reflexão e debate. A crise do FIT está tendo um encaminhamento popular, o que é positivo, mesmo com a sensação de perda; a festa do Circuito aponta para a necessidade de rever posições e referências, o que é sempre uma atitude ponderada quando se quer avançar.

O caso do FIT, que gerou saudável indignação da classe artística, parece seguir uma lógica que precisa ser mudada na condução das políticas públicas do setor cultural. Desde que o cenário ficou viciado pelo recurso às leis, a área pública passou a exercer um papel ao mesmo tempo de norteador e de financiador direto (por meio de fundos) e indireto (pelo mecanismo de renúncia fiscal). Com isso, criou-se uma dependência que deixou os produtores sempre às margens do sistema, meio pedintes, meio vassalos. Ao lado dessa situação, cabe ainda aos responsáveis pela área pública desenvolver ações que estruturam grandes fatias da cultura, por meio de mostras, seleções e festivais. Nesse campo, o FIT tornou-se o exemplo mais abrangente e reconhecido pela população da cidade.

Realizado de dois em dois anos, desde 1994, ele é uma espécie de índice da preocupação da administração pública com a cultura da cidade. Dois anos é tempo mais que suficiente para se organizar o painel da produção cênica local, nacional e mundial e, em nove edições, o evento foi ganhando operacionalidade até deixar de ser um programa para a cidade para ser um festival da cidade, na melhor tradição democrática e republicana. Com isso, cada temporada é precedida de um rico movimento dos artistas mineiros, que se preparam para concorrer às vagas destinadas às produções locais. Cria-se, dessa forma, uma dinâmica que nivela nosso teatro com o que de melhor o mundo tem a mostrar.

A questão do prazo e da qualidade, por isso, são demonstrativos do empenho da administração. São dois anos para que se prepare uma edição, com um protocolo já conhecido e as exigências burocráticas incontornáveis. Assim, a chamada vontade política, que deve sempre ser traduzida em competência, é o vetor do sucesso ou atraso dos responsáveis pelo FIT. Se uma equipe não dá conta de ser eficiente para cumprir uma pauta tão conhecida e requerida pela sociedade, sua inadequação para ocupar o lugar é uma consequência natural. É só comparar essa prioridade cultural com outras igualmente importantes, como a saúde por exemplo. Não se pode compactuar com a ineficiência. Na cultura, também se adoece e se morre.

Além disso, as justificativas apresentadas pela Fundação Municipal de Cultura não merecem consideração, por se tratar apenas de apontar para um calendário antigo de eleições, torneios esportivos e disputas eleitorais, conhecidas há anos e anos. Algumas hipóteses mais realistas apostam em outros motivos para o adiamento do festival: a desorganização interna para viabilizar a realização do evento; a inexplicável cisão com um projeto que vem de outra administração (sem se levar em conta que se trata de um festival definido em lei municipal, e não de propriedade de partidos ou ocupantes do poder); o desprestígio da cultura na atual gestão, que já interrompeu outros projetos populares, adiou a publicação dos resultados da lei de incentivo e não foi capaz sequer de consertar o telhado do mais importante teatro municipal (o Francisco Nunes).

A reação da categoria começa a retificar a direção quase sempre unilateral na condução da cultura na área pública. A melhor montagem do FIT, que não vai acontecer este ano em sua real dimensão, é o teatro de arena da política. Esse sempre foi o nome do festival: palco e rua. Quanto mais rua, melhor.

Liberdade, liberdade
O Circuito Cultural da Praça da Liberdade, que teve suas primeiras unidades inauguradas recentemente pelo governo do estado, vem recebendo elogios de vários artistas, intelectuais e do público. Em geral, é visto como uma troca justa: sai a estrutura burocrática e administrativa (agora centralizada na Cidade Administrativa – e não, curiosamente, Cidade Política, como se a vocação política manchasse a pólis racional dos negócios públicos) e entra a cultura. A própria liberdade, que dá nome à praça, passa a ser conjugada positivamente: o exercício livre do espírito configurado na cultura. Uma nova Praça da Liberdade: afirmativa, plural e criativa; em lugar da antiga, quando a liberdade era projeto político que intentava transformar liberdade em igualdade (trata-se de dois universais que resumem, no extremo, os ideais da direita e da esquerda, em busca de um equilíbrio dinâmico). Mas essas são firulas das palavras. Melhor mesmo são todas as liberdades.

Mas nem todas as comemorações e bons votos (e o material de propaganda do Circuito tem dezenas deles, das pessoas mais respeitáveis) são suficientes para aprovar por si só o projeto. E é porque se trata de liberdade que vários pontos do Circuito merecem atenção e crítica. Em primeiro lugar, há subjacente ao projeto uma certa ideia de revitalização que não se sustenta. A praça não estava morta. Aliás, era exatamente sua ocupação por parcela do funcionalismo que dava o tipo específico de vitalidade que fez história no lugar: um espaço frequentado por pessoas de várias regiões da cidade, que recebiam cidadãos vindos, igualmente, de diferentes pontos de BH. A praça estava viva.

O segundo aspecto diz respeito à forma de ocupação dos espaços e da concepção de cultura que carrega. Há um predomínio de projetos voltados para o conhecimento (mineralogia, astronomia e história), que respondem mais à vocação epistemológica e memorialística, que criativa e transformadora. Além disso, a organização dos equipamentos privilegiou processos expositivos marcados pelo didatismo, pela construção acabada do saber a partir de certo cânone, pela substituição da aura do objeto real pelo sucedâneo da imagem virtual e da documentação fotográfica. Em vez da arte popular, por exemplo, o visitante vai se deparar com registros dessa produção, em plotagens e computadores. A própria composição da ideia de museu, que supõe acervo, reserva técnica e capacidade de renovação, fica cimentada na formulação enciclopédica das instituições recém-criadas.

Outro aspecto que merece ponderação é de natureza geopolítica. A noção de circuito, concentrada em uma das regiões mais nobres da cidade, poderia – e deveria – ser matizada com outras formas de descentralização. A cidade precisa de cultura em todas as suas extremidades. Seguramente, pela má distribuição de outros equipamentos públicos e falta de interesse do mercado, a região do hipercentro e as periferias são aquelas em que a chegada da cultura teria mais potencial distributivo. Assim, o levantamento das unidades do estado que serão desocupadas com a Cidade Administrativa poderia criar um circuito digno do nome, e não uma concentração que se superpõe às ofertas já existentes, atendendo um público já cativo do mercado cultural.

Além disso, a forma como a proposta chegou até a sociedade não passou por qualquer canal de consulta ou discussão, seja com a classe artística, com setores organizados da cultura ou mesmo com o público interessado. Há uma concepção iluminista e, em certo sentido vertical, que delimita cultura por suas manifestações, define público-alvo por sua pertinência geográfica e estabelece parcerias com a iniciativa privada por critérios não universais. Isso, levando-se em conta que se trata de patrimônio público, que passa a ser gerido por empresas. Com isso, o escopo do programa perde em variedade e pluralismo, sem falar do seguimento de interesses que são próprios das empresas que assumem os novos equipamentos, que possuem sua própria política cultural.

Há, portanto, elementos que precisam ser pensados, de ordem conceitual, geográfica, técnica, política, demográfica e ideológica. Que o setor cultural ganhe o espaço antes dedicado ao coração do poder não dá a ele, pelo visto, o mesmo poder de chegar ao coração das pessoas. A discussão, amparada na inspiração da liberdade que dá nome à praça, é boa e mostra que o setor começa a ganhar a importância que merece".

Estado de Minas - João Paulo - 27/3/10

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