Vincent - Um solo de amor

sábado, 2 de janeiro de 2010

A solidão dos homens bons

Não houve em tempos homem bom como o Vicente. Estava ali sujeito nascido para a família. Generoso, sempre disposto a ajudar quem quer que fosse. Herdou do pai, roceiro das bandas de Pará de Minas, admirável vocação para proteger os filhos. Moço ainda, ficou viúvo ao perder Luísa, 24 anos, vitimada por doença incurável. Por desgosto e tristeza, reuniu os cinco filhos pequenos e partiu para tentar a vida em Belo Horizonte. Ajeitou-se em vila popular na região da Gameleira e encontrou nova companheira para tocar a vida.

Augusta amparou os filhos do Vicente como se fossem dela. Luisinho, o caçula, ainda não tinha completado um ano e Valdinério, o mais velho, estava por fazer sete. Este, criança, entendia-se homem de responsabilidades no sustento da casa. Tanto é que não havia engraxate adulto capaz de superá-lo na clientela da Praça 7. Augusta, que nem parecia mãe emprestada, demonstrava ter muito orgulho do enteado. Durante muitas manhãs, no fim da madrugada, preparava a marmita do garoto com o mesmo capricho dedicado ao marido.

Todos os dias, com o sol tímido a se espreguiçar, lá iam os dois a pé pela Avenida Amazonas. Vicente, pedreiro na raça e por necessidade, rumo à obra na Avenida do Contorno. Já o pequeno engraxate, de cabeça erguida, seguia para ponto no quarteirão do damista. No fim do expediente, pai e filho se encontravam no cruzamento das avenidas para, juntos, voltar para casa. E assim, no andar do tempo, oito anos se foram na velocidade da luz. Dois novos rebentos se juntaram à família: Maria Inês e Maria Helena nasceram da união de Vicente e Augusta.

Foi quando pai e filho voltavam para casa, depois de jornada comum de trabalho, que tragédia mudaria para sempre a vida de Vicente. Assalto besta, já perto de casa. Kim, criminoso, ex-morador da região, decidiu tomar o dinheiro dos dois. Vicente já havia entregue tudo o que tinha quando um disparo silenciou Valdinério. Kim atirou sem dó ou piedade e fugiu de carona com o comparsa em carro roubado. Pouco depois do ocorrido na Gameleira, os bandidos tentaram furar blitz policial e foram presos.

Vicente jurou vingar a morte do filho. Fez questão de acompanhar o julgamento do assassino. Com longa ficha criminal, Kim foi sentenciado a 17 anos de prisão. Vicente e Augusta estavam no tribunal para ouvir a sentença. A morte de Valdinério, aos 15 anos, deixou vazio de dor na alma do homem, que não conseguiu continuar morando na cidade. Vicente juntou a mulher e os filhos e decidiu ir trabalhar na fazenda de parente rico em Nova Serrana. No galope das datas, juntos, reconstruíram a vida, alcançando paz e fartura.

Treze anos passados, era dia de Kim sair da prisão para passar o fim do ano com a família. Vicente estava lá para cumprir sua jura. Descarregou o trabuco no peito do infeliz. Entregou-se sem medo de amargar solidão.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 2/1/10

2 comentários:

christina fornaciari disse...

Oi Jefferson,

Acabo de descobrir seu blog e adorei! Muito bacana sua escrita, até bem dramatúrgica! Eu também trabalho com cênicas então não pude deixar de identificar...

Um abraço e bom 2010...
Christina.

JFC disse...

Feliz 2010, Christina! Sorte, saúde e muitas alegrias! Volte sempre!