Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Singelo e requintado


Já é lugar-comum o reconhecimento público do trabalho de Yara de Novaes. Não é para menos. A mulher que ri, que passou por Belo Horizonte no fim de semana, é mais uma prova do apuro da atriz e diretora no plano da criação. O conto do húngaro Móricz Zsigmund (1879-1942), livremente adaptado por Paulo Santoro, levado ao palco do Teatro do Oi Futuro Klauss Vianna pelo Verão Arte Contemporânea (VAC), se faz ainda mais belo sob o olhar de extrema sensibilidade da artista. A história de um homem e a reconstrução de seu passado, ao lado do pai e da mãe, foi argumento suficiente para o levantamento de espetáculo encantador. Emocionante, A mulher que ri é dos bons exemplos de que, também no teatro contemporâneo, quando se sabe o que dizer não é preciso recorrer às invencionices.

A peça enxutíssima, com menos de uma hora de duração, é combinação feliz de texto, elenco e encenação. Em A mulher que ri, a roupagem que dá suporte ao ator é a extensão da verdade que nele contém. Mesmo que as quinas frontais do quadrado cenográfico da memória prejudiquem um pouco a visão da plateia lateral, a caixa cênica de André Cortez – que também assina figurino de muito capricho e bom gosto – é multifuncional na trama. Faz-se também espaço de projeção surpreendente, valorizado pela luz correta de Fábio Retti, que, em acordo com a trilha de Dr Morris, confere clima cinematográfico à montagem produzida pelo Barracão Cultural de São Paulo.

Se por um lado a encenação promove diálogo competente entre si, por outro, não menos eficiente, o elenco realiza encontros admiráveis no jogo das lembranças. Em A mulher que ri está no trabalho dos atores o poder compositor que sucumbe. Plínio Soares, o pai linha dura, acrescido ao roteiro pelo dramaturgo Paulo Santoro, é intérprete de força bruta. Experiente, tem domínio absoluto de seus papéis. Fernando Alves Pinto, de notável capacidade sincera, no papel condutor do drama, sabe bem o que é estado sensorial. Evoca sentimentos na explosão da força física que não mente. É capaz de vivenciar, abrir ou cortar emoções na velocidade da luz, sem abafar o tempo natural e o silêncio das transições. Sabe tratar muito bem o jeito de dar som às palavras.

Eloisa Elena, idealizadora do projeto e a mulher que ri em questão, brinda o teatro nacional com atuação inesquecível. Mineira, formada pelo Teatro Universitário (TU) da UFMG no fim dos anos 1980, a atriz assume com maestria o contraponto de tudo o que é lúgubre e dramático da história de Móricz. No papel-título, representa a boa mãe que não se deixa abater pelas escabrosidades dos tempos difíceis do pós-guerra. Eloisa e Fernando, cúmplices, levantam jogo lúdico em dois momentos dos mais emocionantes do trabalho: na caça às moedas para a compra do pão e na fala sobre Deus e as joaninhas. Também dirigida em cena pelo narrador confuso, domina o tablado na reconstituição de discussão com o marido sobre o futuro do filho.

Ao cair das luzes, o terceiro sinal, pontuado pelo som de três moedas, já anunciava ao que vinha A mulher que ri. Longe do arroubo daqueles que pretendem reinventar a roda, Yara de Novaes, Eloísa Elena e companhia pertencem ao seleto grupo dos que sabem esmerar a simplicidade sem desperdiçar requinte. Com o levantamento de espetáculo tão virtuoso, exemplar por verdade e natureza, as duas artistas deixam bom modelo aos que pretendem a arte essencialmente. A plateia, embevecida, agradece.

Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 18/1/10

Foto: João Caldas/Divulgação

Um comentário:

Anônimo disse...

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