Fantástico - Vai fazer o quê?

sábado, 9 de janeiro de 2010

Dia sim, dia não

Com tanta infelicidade na família, Isolina não pensava em casamento. “Eu? Tô fora!”, vivia dizendo para as amigas do trabalho. A maioria das moças, funcionárias da grande loja de departamento na região central de Belo Horizonte, não entendiam a ojeriza da colega. Fatinha, amigada pela terceira vez, aos 28 anos, no provador, provocava: “Vai ficar para titia e depois ninguém vai querer. Não viu a Norminha!? Escolheu, escolheu, agora taí, batendo ponto toda noite da Maria Cebola, no Nova Camponesa”.

Isolina não deixava render. Levava na brincadeira, feliz com a vida de solteirona. Na véspera de completar 38 anos – muito bem vividos, diga-se de passagem –, resolveu sair para festejar. “Assim, de última hora, é?”, espantou Margarida, baiana fogosa, chegada numa farra. Mesmo pega de surpresa, a gordinha festeira fez questão de assumir a parada: “Deixa comigo, que eu aviso o pessoal da loja. Amanhã tem um forró arretado lá perto da minha casa e é lá mesmo que a gente vai comemorar”.

Depois de muito vai-não-vai, Isolina acabou deixando que a companheira do caixa ficasse à frente do evento. Comprou roupa nova para a ocasião e voltou para casa mais alegre do que de costume. Não só porque era a primeira vez que comemoraria um aniversário com a turma do trabalho, mas, especialmente, porque sentia algo diferente no ar. Havia um calor na gaforinha que ela desconhecia. Talvez por pressentimento: lá, no Forró do Mangabinha, Isolina conheceria o Bilac.

Foi amor fulminante. Assim que cruzaram as canelas e acochambraram as virilhas, não teve parabéns pra você que afastasse os dois. Vendo Isolina e Bilac num só compasso à noite inteirinha, Fatinha comentou com Margarida: “Agora a sujeita desencalha”. Era cedo ainda para imaginar o futuro do casal. O que se sabe é que o rala-e-rola foi terminar no apartamento do moço. Um quarto-e-sala bem ajeitadinho no Bairro Boa Vista. Quarentão descompromissado e sem filhos, com a mulata exaurida no colo, o taxista mandou na lata, por impulso: “Vem morar comigo, vem”.

Bastou para que Isolina saltasse da cama para se vestir às pressas. Não quis mais chamego. Ficou de pé diante da porta que dava para a rua e esperou que ele a levasse. Silenciado pela atitude da mulher, o homem a levou sem vontade. Assim que chegou ao portão do predinho de Isolina, no Bairro Cidade Nova, Bilac respirou fundo para tentar novamente: “Falei sério. Com você eu até caso. Com véu, grinalda, papel e tudo”. Isolina nem esperou para ouvir o que ele ainda tinha para falar. Desceu do carro iluminada pelos primeiros raios do sol e sumiu corredor adentro.

De volta ao quarto-e-sala, Bilac não conseguiu pregar os olhos. Estava abraçado ao travesseiro com o cheiro da aniversariante quando o telefone tocou. Do outro lado da linha, a voz trêmula de Isolina soprou: “Dia sim, dia não, eu topo”.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 9/1/10

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