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sábado, 30 de janeiro de 2010

O absurdo e seu duplo

E o absurdo segue reinando no Verão Arte Contemporânea de 2010. Ionesco, Beckett, Jean Genet, Artaud, Dürrenmatt, Albee e Arrabal fazem escola em Belo Horizonte. Ganha o público, que, assim, pode ter acesso a um teatro diferenciado, distante do que comumente se vê brotar em cercas. Até amanhã, no Espaço Trama – Teatro Garagem, na Floresta, tem programa duplo para plateia de comuns, iniciados e afins: 5 cabeças à espera de um trem e Pedaço de homem cercado de outro por todos os lados. O primeiro, esquete ajustado de 15 minutos com direção e dramaturgia de Byron O’Neill – que indica gostar muito de A cantora careca, clássico de Ionesco. O segundo, principal atração da noite, é bem mais surrealista do que propriamente absurdo. Ainda que pretensioso, é curioso embate de reflexão do homem pelo homem.

A começar pelo princípio, Byron O’Neill é criador de trânsito também no cinema. Seu foco de apuro em 5 cabeças à espera de um trem garante desenho inteligente a mais uma proposta vinda do projeto de cenas curtas do Galpão Cine Horto. Os diálogos muito bem interpretados pelos cérebros flutuantes, seguramente, valem a ida à Rua Salinas. Carol Oliveira, Luisa Rosa, Mariana Câmara, Ronaldo Jannotti e Saulo Salomão souberam acolher a proposta coreográfica de detalhes da direção. Agrupados, aduzem largo repertório de inflexões e expressões faciais (só com o que podem mostrar serviço, já que, do pescoço para baixo, estão todos fora de quadro). Na ficha técnica, o nome de Rafael Nelvam é destaque pela trilha sonora original acertada, que orienta e pontifica. Igualmente, a maquiagem de Daniel Mendes.

Fim de esquete, o público voltou à entrada para que o espaço fosse preparado para receber a segunda amostragem. Era hora de ver a estreia de Pedaço de homem cercado de outro por todos os lados. Arquibancadas e cadeiras ocupadas, dois jovens atores, dirigidos a quatro mãos por Juliana Putilla e Nina Caetano, assumem a arena. Marcelo Alessio e Rogério Gomes são artistas de preparo em partitura física. Cúmplices, jogam com dedicação e entrega por complementação mútua no campo do movimento. Texto falado é que não é o forte da dupla, que só atinge sustentação e naturalidade de inflexões por cansaço ou esgotamento. Falta-lhe o entendimento da nuance que enriquece a palavra. É engolida quando abre a boca. Outro fator de enfraquecimento é a dramaturgia, que excede em signos e abusa de referências, o que faz com que não haja suporte para sua hora de andamento.

O que há de melhor em Pedaço de homem cercado por todos os lados é sua concepção do homem e seu duplo – há drama existencial de significância no argumento. Ideia otimizada pela cenografia de Inês Linke e pela direção sonora de Stanley Levi. A ilha-papel absurda de restos e excessos, com sons desdobrados da própria ação, ampara corretamente o agrupamento de metáforas presente na montagem. Entretanto, a sensação que fica é que, originalmente enxuta, a cena foi esticada forçosamente para ganhar status de espetáculo. Com isso, desperdiça tempo com bobagens, como o ataque gratuito à campanha de popularização do teatro e da dança, durante leitura irônica de tragédias noticiadas nos jornais. Comentário infeliz do ator, que, sem a menor noção do que diz, além de ofender colegas que também batalham pelo pão, faz pequena obra que poderia ter mais a dizer.

5 CABEÇAS À ESPERA DE UM TREM
PEDAÇO DE HOMEM CERCADO DE OUTRO POR TODOS OS LADOS
Espaço Trama – Teatro Garagem, Rua Salinas, 642, Floresta, (31) 2515-1580. Até amanhã, às 20h. R$ 12 (inteira) e R$ 6 (meia-entrada).


Jefferson da Fonseca Coutinho - Estado de Minas - 30/1/10

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