Fantástico - Vai fazer o quê?

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Elisabeth não tem cabelo

O que difere invencionice de criatividade é o significado que se dá à ação (ou às coisas), isoladamente ou em conjunto. Meio teatro do absurdo, outro tanto coreográfico, físico, naturalista e fantástico, Elisabeth está atrasada, da Companhia Primeira Campainha, é resultado que se ergue da boa investigação. Em jogo psicológico singular, quatro excelentes atrizes defendem com admirável entrega questões muito particulares do universo feminino. Espécie de Role playing game (RPG), a peça tem como ambiente de partida um clube de leitura e revelações. Um narrador-mestre, distanciado em função exclusiva, comenta a ação dramática, ajudando na condução da trama. No palco, as jogadoras – todas as quatro – demonstram habilidades impressionantes na realização da divertida e melodramática aventura.

Patrícia Diniz, Rita, exuberante, tem carisma incomum. Convence fácil. Multiplica-se na cena sem ridicularizar a personagem, com firmeza de intenções. Marina Viana, a esposa ciumenta e vingativa, com seus rolinhos na cabeça, é a dona da verve. Mulher que dorme na geladeira, a atriz constrói personagem perigosa sem cair na caricatura. De consciência corporal evidente, Marina Viana não força a barra para fazer graça. Tem timing natural que faz valer voz e silêncio. Mariana Blanco (foto) – vale guardar o nome – é um espetáculo à parte em Elisabeth está atrasada. Não é comum ver intérprete tão jovem já tão eficiente no trato das intenções. Comedida e generosa, apresenta composição crível do início ao fim do trabalho. Impossível não entender compartilhada a verdade de Mariana Blanco.

Marina Arthuzzi, diretora estreante no Verão Arte Contemporânea, entra pela porta da frente no festival. Além de atriz competente – embora por vezes fale baixo demais –, dirige grande promessa da cena mineira. Seu espetáculo de concepção coletiva é grata surpresa. Não foi boa divulgação ou por boas relações, simplesmente, a sessão extra de domingo no Espaço Ambiente. Naturalmente, já efeito de boca a boca por espetáculo tão original.

São muitos os fatores que fazem de Elisabeth está atrasada montagem de futuro: belo figurino (nas cores de Almodóvar); luz coerente; cenário limpo, essencial; trilha de bom gosto que alinhava conceitualmente a proposta; texto de poesia apurada em roteiro ágil, quase sydfieldiano, com direito a ponto de virada final – que não vale contar aqui para não estragar a surpresa. Claro, há também no espetáculo um funcional duo masculino. No entanto, na obra de Marina Arthuzzi e seu pequeno exército feminino, os homens... bem, os homens são acessórios. Eugène Ionesco aplaudiria essa Elisabeth sem cabelo.

Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 19/1/10

Foto de Mariana Blanco: Thomás Arthuzzi

Um comentário:

Christiane disse...

Assisti ao espetáculo em Barbacena/MG. Engraçadíssimo, sem deixar de ser inteligente. Destaque para o talento das atrizes. Recomendo.