Fantástico - Vai fazer o quê?

sábado, 16 de janeiro de 2010

O doutor delicado

Norminha desconfiava, mas nunca tocou no assunto. Feliz da vida, namorou, noivou e se casou com o residente Dragoberto, contrariando a vontade do pai machão e preconceituoso. O Roberval até levou a filha ao altar, mas no caminho, dentro do carrão antigo, não perdeu a oportunidade e espinafrou o noivo na cabeça da filha: “Ainda dá tempo de pular fora dessa roubada. Esse sujeito é viado! É boiola, tenho certeza. Só pode ser. Homem que é homem não tem as delicadezas e frescuras do seu noivo, eu sei”. O motorista, desconhecido, não acreditava na cena. Achou um absurdo a falação do pai na cabeça da noiva a poucos minutos do casamento.

Calmíssima, Norminha parecia nem se importar com a opinião do pai falastrão. Conhecia-o bem. Apenas ajeitava o buquê de flores do campo, sugeridas pelo noivo, que ela mesma preparou para a ocasião. O Roberval falou pelos cotovelos até chegar ao grande portão da igreja. Desceu do carro, armou o sorriso mais amarelo de que já se teve notícia, ajeitou a gravata e encarou o tapetão vermelho de braço dado com a filha única. O advogado ainda encontrou tempo para fazer comentário maldoso entre os dentes: “Nunca vi tanta bicha reunida. Tudo convidado do seu noivo.” Já cara a cara com o Dragoberto, antes de deixar a filha, alfinetou: “Eu avisei.” Sorridente, a moça de branco beijou a testa do pai e deu seguimento ao enlace dos mais alegres da paróquia.

A lua de mel, presente dos pais do noivo, fazendeiros riquíssimos no interior de São Paulo, foi um sonho: 29 dias na Europa, com direito a uma semana em Paris e final de semana em castelo na Escócia. Dragoberto, médico recém-formado, viajado e de bom gosto, sabia bem o melhor roteiro para agradar a mulher. Profundo conhecedor de línguas, museus, casas de espetáculos e gastronomia, o jovem doutor deu à sua senhora temporada inesquecível para toda a vida. Tão boa a farra, já voltaram grávidos. Até fizeram nova reforma no casarão do Bairro das Mangabeiras só para receber a Laurinha. E a vida seguiu com felicidade rara para o casal de médicos.

Dragoberto estava de plantão em unidade móvel de resgate quando foi chamado para atender urgência em motel no Centro da cidade. Na suíte de luxo, o sogro sessentão, vítima de acidente vascular cerebral. Para a sua surpresa, o pai machão da Norminha estava fazendo programa com garoto de aluguel. O michê, em pânico, falou com carinho do cliente antigo. Foi ele quem chamou o resgate e fez questão de acompanhar os primeiros-socorros. Levado às pressas para hospital de luxo, Roberval sobreviveu. Com muitas sequelas, infelizmente. Norminha ficou muito triste com o mal súbito que mudou a vida do pai e, por discrição do marido, não soube de toda a história.

O velho Roberval, mudo, inválido em cadeira de rodas, muito bem cuidado pela boa mãe da Norminha, ainda parece manter acesa a chama da vergonha sempre que passeia o olhar em direção ao genro, doutor de delicadezas.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 16/1/10

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